Assédio virtual - Gutemberg Armando Diniz Gue
Assédio virtual
Gutemberg Armando Diniz Guerra
Tornamo-nos completamente
vulneráveis ao assédio virtual. Seja por telefone celular ou pelas redes
sociais, somos abordados várias vezes ao dia para nos convencerem a comprar os
mais variados produtos e serviços. Pior é quando o assédio vem em forma de golpes
muito bem elaborados e capazes de nos convencer rapidamente. Os caminhos para
chegarem até nós estão abertos por termos feito uma pergunta e,
inadvertidamente ou não, dado concessão ao sistema, por termos adquirido
medicamento na farmácia, ou um equipamento da indumentária em uma loja de
repartição, ou por termos permitido que fizessem o nosso cadastro para algum
desconto isca para ter acesso aos nossos dados e contatos eletrônicos.
Desde o mito da caverna, estamos
submetidos à clara exposição de como se constroem certezas a partir de reflexos
do fenômeno. Há quem fale em modernidade líquida, porém minha percepção é de
que estamos em um mundo para muito além do sólido, líquido ou gasoso, embora as
consequências provoquem impactos concretos em nossa vida material. Há uma
espécie de metafísica concreta, palpável, um mundo paralelo e imperceptível em
seus movimentos, mas com consequências imediatas em nossas vidas.
Estou muito preocupado com os
efeitos dessa mudança de relação com o mundo concreto, principalmente com os
jovens, que são consumidores vorazes de tecnologias que se conectam como redes
sociais. O fetiche da escrita e a autoridade dos mais experientes eram os
marcos da certeza do que não era experimentado. Esses fetiches agora são de
domínio da tecnologia da informação, dos aparelhos de comunicação à distância.
O que vem neles escrito adquire ares de sagrado e incontestável, mesmo com
todos os alertas que se fazem aos falsos noticiários, as famosas fake-news.
Embora não seja especialista na
área, tenho visto que os ataques são muito bem elaborados e dirigidos para o
público-alvo que eles visam atingir: para idosos, atacam a demanda por memória,
paudurescência, falta de atividade física, deformando o corpo e outras coisas
comuns da maturidade. Às mulheres são ofertadas roupas, joias de marcas
consagradas, oportunidades de emprego e ganhos fáceis. Aos jovens, as casas de
aposta os disputam vorazmente com ofertas mirabolantes de enriquecimento
imediato e sem necessidade de estudo e esforço. Aos eretômanos, relacionamentos
fáceis e prazeres infinitos, nas proximidades e com disponibilidade imediata de
parceiros jovens, bonitos e sensuais.
A estrutura do marketing tem sempre
os mesmos elementos: um problema específico, um público determinado e eleito
para o ataque, a oferta de uma solução imediata, supostamente rápida e não
convencional, o descredenciamento da ciência simbolizada pela indústria
farmacêutica e pela medicina consagrada, a comercialização de um produto a ser
adquirido em créditos facilitados por parcelas adjetivadas como acessíveis e
módicas, e a promessa de devolução do dinheiro em caso de não atendimento da
expectativa ou insatisfação do cliente. A oferta tenciona ao limite, provocando
a ansiedade das vítimas, alertando que o tempo da oferta é limitado pelo ataque
dos concorrentes, quais sejam a indústria farmacêutica, o estado e as
plataformas digitais. Atiçado o sentido de oportunidade que não deva ser
perdida, o desfecho induz à aquisição imediata daquilo que se oferece como uma
grande e feliz solução.
O público em geral é muito
vulnerável pela ignorância e ingenuidade, confia em tudo o que aparece na
telinha com seu poder de hipnose!
Informações essenciais, como
alimentação saudável, uso adequado da água, atividades físicas praticáveis ao
ar livre e de efetivo rendimento para a qualidade de vida, não têm sido itens
contemplados com a devida atenção das políticas públicas e, pior, são
esvaziados pelo hedonismo, busca do prazer e sucesso imediato.
A chamada inteligência artificial, tratada cada vez mais intimamente como IA, favorece os criminosos que dela se utilizam para fazer as mais mirabolantes acrobacias de convencimento do público preferencial para os golpes. Hackers podem entrar nos sistemas operacionais dos equipamentos eletrônicos e se passar pelos seus proprietários, enganando as pessoas mais próximas, como pais, mães, irmãos, tios, professores e orientadores.
A linha de raciocínio e construção da armadilha tem outra
estrutura. O golpista se coloca em dificuldade e pede socorro à vítima de sua
chantagem. Identifica-se como um parente ou amigo muito próximo, diz-se em
situação de insolvência, em algum lugar ermo, alega estar sem dinheiro para
resolver o problema e desfere o golpe certeiro para atingir o bolso, a bolsa, o
saldo da conta corrente ou mesmo da poupança da vítima. Por mais artifícios que
se criem para prevenir os incautos, os golpes continuam acontecendo e os mais
espertos continuam surrupiando velhos e novos.
No campo da política, as coisas
estão muito piores. Qualquer postagem é imediatamente classificada como de
direita ou de esquerda, e os comentários rendem infinitamente em níveis e
quantidades variados, na maioria das vezes descambando para a diabolização do
adversário e agressões verbais em tons jocosos de calão variado e virulência de
alta letalidade mental.
Em temas polêmicos, se não se tomar
cuidado, perde-se o dia inteiro lendo as réplicas e tréplicas. Sabe-se, desde
já, que estas são estratégias políticas de candidatos para se manterem na
mídia, utilizando um velho jargão e tática que funcionam muito bem,
principalmente nos ambientes em que o algoritmo impera: falem, bem ou mal, mas
não deixem de falar de mim!
Mês de aniversário, fui ao banco fazer prova de vida, exigência burocrática que aposentados devem cumprir e podem fazer pelo sistema eletrônico. Preferi ir direto à agência, falar com o gerente e trocar um dedo de prosa sobre o assunto. Melhor assim, disse ele. Acabara de atender a uma colega que teria feito o procedimento online no site recomendado do governo. Ela não tinha se dado conta de não ter completado o percurso corretamente e ficara sem receber proventos durante dois meses. Para pagar as contas que foram se acumulando, usou o cartão de crédito, que se avolumara a tal ponto que exigia uma complexa negociação para saneamento das suas finanças degradadas em bola de dívidas.
O bancário reforçou a minha opção
de fazer o procedimento presencialmente, com a impressão em papel da
confirmação de que eu estou vivo e operante. Belisquei-me, rindo comigo mesmo,
e voltei para casa feliz de saber que o mundo virtual existe, mas que, antes
dele, eu devo continuar gostando mais das relações presenciais, em que é insuperável
o bom humor das palavras, dos gestos, do cafezinho e da água sorvida na
repartição pública, em que a burocracia, por mais enfadonha que seja, tem vida
de carne e osso.

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