BELÉM, O ALCAIDE E OS DESMONTES DA CU(L)TURA– Paulo Nunes
BELÉM, O ALCAIDE E OS DESMONTES DA CU(L)TURA
Paulo Nunes[1]
Em tempos de administrações
públicas neoliberais, saúde, educação e cultura ficam à míngua, bubuiam ante a
cortes de orçamento e outros desmandos que desaguam em exclusões, porque, em
geral, o que se vê são privatizações para estes setores que são essenciais à
população. Terceirizar funções do Estado, em geral, causa vários problemas à
sociedade, ávida de ações satisfatórias que lhe possibilitem a saúde emocional
e a formação de cidadania.
Eu poderia falar da privatização da
COSANPA, que deu com os burros n’água, ou do caos em que se transformou o
Pronto Socorro Municipal Mario Pinotti, da 14 de Março (a imprensa noticia
mortes de pacientes). Como não sou das áreas em questão – saneamento,
abastecimento de água e saúde –, não disponho de elementos para aprofundar tal
discussão, apensar me queixo como cidadão que paga seus impostos (e não são
poucos!).
Dito isso, adentro a minha seara —
educação e cultura (de dezenas de anos de serviço prestados em SEMEC,
SEDUC e Fundação Cultural do Pará, nas Unama e UEPA e, agora, mais
recentemente, no Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Calejado, reporto-me
aqui a duas violências simbólicas cometidas pelo prefeito Igor Normando: a
desmontagem do “Memorial Bruno de Menezes do Modernismo paraense” e o
“cancelamento” do Museu de Arte de Belém, o MABE. São ações do chefe do
executivo municipal que empobrecem Belém, uma das capitais culturais da
Amazônia.
O primeiro ato de Normando é ataque
grave contra nossa literatura que, em síntese, acredito eu, é resultado de
desconhecimento da importância de um dos maiores ícones da literatura
brasileira afrodiaspórica do século XX, o paraense Bruno de Menezes, que, um
exímio articulador, é fabuloso poeta, e por isto iluminou as grandes mudanças
estéticas de nossa arte literária, no início do XX, mostrando ao Brasil que a
capital do Pará tinha substância para ser reconhecida como uma das capitais do
Modernismo literário nacional. Bruno atuou, dentre outros, na Academia dos
Novos ou, como disse Dalcídio Jurandir, a geração do Peixe Frito de nossa
literatura.
Edmilson Rodrigues, quando prefeito
da capital, em seu último mandato, no início de 2020, aquiesceu às
reivindicações da família do poeta de “Batuque” e criou o memorial da
literatura – demanda antiga de militantes do meio como Josebel e Josse Fares,
Elaine Oliveira, Guilherme Fernandes e José Guilherme Castro, Arthur Bogéa,
Amarilis Tupiassú, dentre outros. Memorial BM estava abrigado no anexo do
Palacete Pinho, centro histórico da cidade. Igor, o alcaide que sucedeu
Edmilson, resolveu que um memorial para homenagear um poeta preto e de origem
jurunense, periférica, portanto, não cabia numa "casa senhorial" da
elite do látex, um símbolo augusto da melancolia de nossas elites, atrasada e
eurocêntrica. O palacete, segundo mostrou a imprensa, foi entregue por Normando
à iniciativa privada (https://holofotevirtual.com/posts/2025/para/prefeitura-esvazia-palacete-pinho-com-desmontes-da-emab-e-da-casa-bruno-de-menezes). Atitude mesquinha de um administrador pequeno-burguês que possivelmente não
leu um poema algum de escritor ou escritora [modernista] paraense.
A desmontagem do MABE é certamente
mais desastrosa e de consequências inimagináveis, afinal o MABE é uma
instituição museológica tradicional que prestou centenas de milhares de
serviços à sociedade da Amazônia e, por conseguinte, à do Brasil. O MABE é uma
de nossas "casas de guarda de memória", o que a outra instituição, o
Memorial BM, tinha tudo para vir a ser, embora, nova, não estivesse ainda
gabaritada pelo nosso imaginário social e pela tradição de nossa história
cultural.
No meu entendimento, as ações de
Igor Normando são inaceitáveis, desbaratadas e configuram desvio de
lesa-paraensismo, quando impedem a população do Pará de ter acesso a seus bens
culturais mais valorosos. Pobre Belém e seus desmandos, cada vez mais empobrecida
pelos atos de seus prefeitos.
As atitudes cometidas pelo
atual gestor da capital do Pará fazem-me recordar um livro provocativo e
necessário, escrito pela intelectual francesa Michèle Petit. O livro,
intitulado "Somos todos animais poéticos", foi lançado pela editora 34,
no ano de 2024; ele reúne ensaios que discutem a arte, os livros, beleza
estética e formas de difusão dos saberes lúdicos.
Petit destaca o desafio de, nestes
tempos de pressa suprema, futilidades e barbáries, os professores nos
transformarmos em mediadores da beleza estética. Todos têm direito à beleza. E
a beleza estética é um direito fundamental de todo cidadão e toda cidadã, seja
no hemisfério Norte, seja no hemisfério Sul.
Se fosse possível, eu presentearia
o livro de Michèle ao atual prefeito de Belém, mas isso não garantiria que ele
fosse lê-lo. Se o alcaide não for chegado à leitura e às artes, ele bem poderia
comprar uns exemplares do referido livro para distribuir às salas de leitura da
SEMEC. Hein? Ele não costuma comprar livros para munir as escolas municipais de
Belém? Caro prefeito, ‘vumbora’ escutar os Titãs: “a gente não quer só comida,
a gente quer bebida, diversão e arte”...

[1] [1] Escritor, autor de “Poemas do
Guarda-Chuva (retratos líricos de Belém)”, a sair pela PakaTatu editora; é
professor da UEPA e da Unama e ocupa a cadeira 37 do Instituto Histórico e
Geográfico do Pará, que pertenceu a Raimundo de Morais.




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