Cemitério em Cuiarana? - Gutemberg Armando Diniz Guerra
Cemitério em Cuiarana?
Gutemberg
Armando Diniz Guerra
Diz o povo do lugar que
quase não se morre por aqui e que ninguém que desencarne nessa localidade
pretende aqui ser enterrado. Tanto era assim que não havia lugar destinado a
esta finalidade. Até tentaram fazer um parque da saudade, em priscas eras, bem
ali por onde hoje se encontra o campo de futebol dito da comunidade, mas, de
tanto os vivos recusarem ter descanso nessa terra, o campo santo escolhido, e
que era bem menor na época da funesta pretensão, ao não ter a destinação
fúnebre, teria sido ampliada a área de esporte para se ter ali uma arena em
tamanho oficial. Continuaram, pois, os cuiaranenses a ser enterrados na sede
municipal ou em povoados próximos.
Houve um outro tempo em
que um político proeminente da república fez morada no povoado e andou a fazer
benefícios em uma típica forma de cabalar votos. Teria investido na reforma e
melhoria das instalações de templos religiosos de confissões com os mais
numerosos fiéis, doou cadeiras, colaborou para a pintura, aplicou emendas parlamentares em
asfaltamento de vias, construção de calçadas, apropriou-se de terreno em que
instalou um clube de futebol que veio a disputar a primeira divisão do
campeonato estadual e, por não haver cemitério no lugar, se dispôs a criar um
para que os nativos ali se acomodassem como última morada. O ex-quase campo
santo foi murado, colocaram-se duas estatuas no que seria o portal para o além
e se aguardou pacientemente a oportunidade para a inauguração da última morada.
Não houve colaboração de nenhum vivente para o empreendimento, de formas que o
projeto de dormitório para o descanso eterno se frustrou. A preocupação dos
deste lugar era a permanência e festejar a vida, e não o seu fim.
As histórias que se
contam são muitas. Quando a área destinada ao cemitério foi cercada, várias
pessoas, entre as quais me incluo, teriam se mudado do lugar considerando a
proposta como mau agouro. Passaram-se anos e nada de o cemitério ser
inaugurado, o que findou como uma espécie de espaço morto, sem finalidade, ou
com utilização apenas em momentos específicos como festividades juninas, bailes
de final de ano com sonorização treme-terra e coisas do gênero. Coisas de vivos,
sim, senhoras e senhores!
Voltei à Cuiarana para
passar uns dias nas férias dos meus filhos e, nas minhas caminhadas matinais,
passei em frente ao local onde seria o dito cujo e mal-assombrado investimento.
Ouvi vozes que vinham do lado de dentro então cercado com tapumes altos e
portões blindados. Pareciam vozes de pessoas animadas, gargalhadas, mesmo.
Senti um arrepio me correr pela espinha dorsal e, ato contínuo, me veio à
imaginação se não haveria algumas almas a discutir algum assunto que não era de
meu interesse e nem de mais alguém nesse mundo. Espichei o pescoço e vi que
havia ali uma casa bem construída, de tijolos e telhas de barro. Apressei o
passo, finalizei a caminhada, cheguei na pousada disfarçando serenidade e
indaguei se alguém me dava notícias sobre aquele terreno e seus moradores. A
resposta era simples: o político federal dera outro destino ao terreno para o
qual havia proposto destinar como morada aos despojos de quem viesse a
ultrapassar o portal do além. Visto que como não havia perguntado aos daquela
terra se queriam ou não aquele equipamento coletivo e posto que ninguém lhe
daria voto nem crédito por contrariar a tão sagrado desejo dos que ali viviam,
decidiu que ali não seria jamais destinado a enterrar cadáveres e teria feito
um acordo com um político municipal que ocupasse a área como bem lhe aprouvesse.
Saibam todos que, há
poucos anos, uma empresa funerária que presta serviços aos munícipes vendendo
planos para este tipo de cerimonia e rito, construiu uma área muito bem
planejada logo na estrada que dá acesso ao povoado, a pouco menos de uma légua
de distância do aglomerado de casas. Neste local se cremam e se engavetam os
que façam parte da associação que se incumbe de cuidar da despedida e do que se
queira fazer dos restos dos seus entes queridos.
O fato é que, na
localidade mesmo de Cuiarana, até hoje não há cemitério e, até onde sei,
mantem-se a firme disposição dos que ali vivem e dos que fazem veraneio, de não
se ter ponto final nem se firmar ali qualquer referência ao término da
existência. Confesso minha simpatia aos
adeptos da ideia de que ao morrer, o defunto não tem mais nenhum problema e
quem permanece vivo não pode se queixar de seu destino mais longevo. Para
concluir, inspirado no que vi e ouvi dizerem, reflito, repito para mim mesmo e
compartilho com meus leitores essa máxima: quem mora no paraíso não carece de
morrer!

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