Trocando figurinhas - Gutemberg Armando Diniz Guerra
Trocando figurinhas
Gutemberg Armando Diniz Guerra
Ano de copa do mundo é tempo de aumento das condições normais de temperatura e pressão. Primeiro porque ocorre no verão em que os graus centígrados estão mais elevados, principalmente aqui pertinho da linha do Equador. Depois porque o desejo dos brasileiros de ganhar mais um campeonato e completar o hexa vem se acumulando, acelerando as batidas dos corações desde os mais tíbios aos mais atirados pela emoção.
Quanto à pressão, ela vem de todos os lados. Os miúdos querem ter os álbuns para colecionar figurinhas das estrelas das diversas seleções, implicando em um baque no orçamento das famílias, sejam elas as mais confortáveis economicamente, sejam elas as mais humildes. As praças, principalmente nos domingos, se enchem de trocadores de figurinhas que tentam aproveitar as duplicatas que se acumulam na medida em que o álbum vai se preenchendo. Pais e mães, irmãos e irmãs, tios, tias, avôs e avós se acumulam nos pontos que os colecionadores elegem para se encontrar e tentar completar a tarefa que deveria ser apenas dos pequeninos.
A atividade desperta nos mais velhos as crianças que continua a existir neles. Em Belém os pontos mais conhecidos de aglomerações são a Praça da República nas proximidades da Banca do Alvino, a Praça Brasil em frente e entorno de um outro ponto conhecido de venda de publicações e lanches regionais, a Praça Brasil quase em frente à capela de Santo Antônio de Lisboa e no entorno de uma banca de revista que se tornou referência.
As pessoas que têm tino administrativo e financeiro aproveitam para ganhar uma graninha vendendo as figurinhas compradas em profusão e que vão se acumulando em duplicadas que acabam sendo vendidas a um preço majorado ou trocadas seguindo estratégias de auferir vantagens e compensar os custos dessa operação que se mistura como lazer e cultura. Estabelece-se um mercado que aos poucos vai se transformando de escambo, em trocas de uma por uma das peças, para uma sofisticação com argumentos que valorizam umas figurinhas mais do que as outras, como as da seleção brasileira, a única representação a participar de todos os certames até o momento e que pode ser hexacampeã, o que faz a imagem dos seus figurantes valerem duas por uma. As figurinhas que têm um brilho mais elaborado e vistoso, têm valor de troca mais acentuado, assim como as das celebridades mundiais como Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar, que merecem argumentos para maior preço.
Em Belém, tanto as praças emblemáticas já citadas com suas históricas bancas de revista, se enchem de um público intergeracional visualmente identificável pelos álbuns debaixo dos braços, maços de figurinhas nas mãos, tabelas de controle feitas manuscritamente, impressas ou nos aparelhos eletrônicos, indumentárias de camisas com as cores da seleção brasileira ou dos times nacionais de predileção de cada um dos colecionadores.
Os vendedores equipam o ambiente com cadeiras e bancos leves que permitam maior conforto para o público pagante de pacotes com figuras aleatórias, desta feita editadas em número cabalístico de sete por invólucro. Há sempre quem esteja disposto a pagar por um valor elevado uma figurinha escassa ou mais elaborada do ponto de vista estético ou de significado simbólico consolidado.
A empresa de refrigerante americana conhecida mundialmente usou, desta vez, uma estratégia de colocar figurinhas dentro das embalagens, obrigando os pequenos a consumir o seu produto como se fosse um brinde, embora o valor do líquido oferecido seja maior do que o normal e anterior ao evento. Há vendedores que aproveitaram a estratégia da empresa norte americana oferecendo uma combinação de refrigerante contendo figurinhas, mas acompanhado com bolo de macaxeira, quebrando a hegemonia da propaganda estrangeira, aproximando o público empaticamente da identidade nacional.
Em pontos comerciais de grandes superfícies há espaços oferecidos para a atividade de troca em que os estabelecimentos proíbem a compra e venda entre os colecionadores, induzindo-os a comprarem em seus caixas e faturar o mais que podem. São livrarias, lojas de conveniência, de variedades ou simples boxes de venda.
As escolas têm um trabalho a mais de supervisão dos alunos uma vez que a ansiedade e inquietude dos jovens aumentam com a atividade de trocas e apostas para adquirir as figurinhas faltantes da coleção. Há os que aceitam perder com serenidade, mas há os que se angustiam, entristecem e choram com as perdas e as gozações feitas pelos vencedores.
Os miúdos inventam maneiras de trocar as figurinhas apostando em um mecanismo de fazê-las virar com a pressão do vácuo da palma das mãos em concha. Chamam a isto de bafo, por conta do vento provocado pela batida das mãos em uma superfície de apoio das figurinhas. Há os mais hábeis para ganhar mais e os menos habilidosos que findam sendo os perdedores nessa disputa que anima as relações entre eles.
Tem crianças que memorizam as imagens e decoram os nomes dos jogadores, dados sobre os países participantes e outras informações que se oferecem no álbum, o que faz da atividade um exercício positivo de conhecimento, memória e habilidade mental. Há, porém os que só se interessam pela aquisição das figurinhas faltantes e pelo prazer de completar a coleção. Mas como tudo na vida é passageiro, o entusiasmo inicial se arrefece, e se os pais não insistirem no incentivo, é mais uma atividade que deixam incompleta e sem grandes proveitos.
Vamos ver como será desta vez em que o desencanto com a equipe nacional é patente! Oxalá avancemos para um final feliz e um hexacampeonato esperado desde 2006, mesmo que a seleção convocada pelo álbum não seja a mesma que está jogando de fato e nem dê grandes esperanças a muitos desalentados torcedores! Oremos!

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