UM CONTO DE VINICIUS ALVES DO AMARAL
Caeiro da várzea
Enquanto atravessava a planície liquida, admirava suas margens: os galhos se intrometendo no caminho, as folhas reluzindo como vitrais, os troncos afogados.
Finalmente, a embarcação se embrenhou no labirinto improvisado pelas chuvas. Era bem cedo, mas ali dentro se podia sentir o hálito do meio-dia. Como se tivessem entrado em outra dimensão – e realmente tinham entrado.
Maritacas, jandaias e araras em algum ponto daquele emaranhado verde celebravam a manhã. Manhã que nunca será a mesma. Não há melhor metafísica que o esquecimento. O doce esquecimento que repousa na sensação. O doce esquecimento da selva.
A canoa atravessou o igapó e ele deixou para trás uma gota de saudade.
**
Se tem alguém mais calmo que o Seu Magella na Terra, essa pessoa está morta, dizia Renan. Em seis anos trabalhando nessa empresa, nunca o rapaz viu o homem aumentar o tom de voz. Motivos lhe deram, principalmente o gerente.
Magella montava as planilhas com minúcia e isso levava tempo. Um tempo nada lucrativo. Reinaldo citou o seu caso tantas vezes nas reuniões, que os colegas, compadecidos, decidiram ajudá-lo preparando planilhas alternativas para enviar no seu lugar antes do prazo se esgotar.
Reinaldo parou de chamar a atenção do funcionário e Magella talvez nunca tenha se dado conta do esquema dos colegas. Na realidade, ele tinha coisas mais importante para pensar, ou melhor, pescar.
**
Era um caderno comum, comum. Desses com espiral. A capa já estava desgastada, mas isso não o importava. Era melhor levá-lo para todo lugar do que arriscar perder um peixe.
Magella tinha esse costume – outro que os colegas de trabalho estranhavam – de chamar as ideias de “peixe”. Para ele, elas estão nadando por aí no oceano do dia a dia, às vezes bem perto de nós, mas só conseguimos pegá-las se lançarmos nosso anzol na água.
Nem todas valem a pena serem pescadas. Pra quê ficar com um lambari que mal dá pra alimentar a alma? Não, não. Nessas horas é importante devolvê-las ao mar. Algumas podem voltar depois, maiores, mais desenvolvidas.
O caderno mesmo passou por esse processo. Anos atrás, quando ainda estava de luto, pensou em botar tudo o que sentia num diário. Leitor voraz, ele avaliava a composição das frases por horas antes de passar tudo a limpo. Acabou que tinha arrumado nova fonte de frustração. O diário não durou uma semana.
Mas desde que começou a ver o mundo sob novas lentes, sua mente de repente acolhia algumas frases completas ou imagens que ele nunca seria capaz de imaginar. Não que fossem horríveis, muito pelo contrário; eram boas demais, tão boas que não poderiam ser dele. Enfim, Magella chegou à conclusão: de fato, não eram. Ele estava pescando ideias aleatórias. Ora, ele não podia desperdiçá-las, não quando tanta gente vive sem elas no dia a dia. Assim, ele voltou-se ao diário. Um diário de ideias.
**
Assim que o viu pela primeira vez, Rita suspeitava se tratar de um homem sábio. A pista vinha dos cabelos brancos (ele era o mais velho do departamento), mas a confirmação veio com sua voz mansa e aveludada. Até mesmo quando falava de como preparava cuscuz parecia estar dando uma aula.
Rogério, por sua vez, gostava de provocá-lo toda vez que o Vasco perdia uma partida. Passava pelo cubículo no dia seguinte ao jogo perguntando pelo placar. Ele fazia isso com todos os torcedores do time no escritório. Ou eles esbravejam ou fingiam ignorar a pergunta. Magella nunca se zangava, apenas dava de ombros, sorria e dizia “fazer o quê”.
De todos, Ruth era a mais próxima dele. Talvez visse nesse senhor um pouco de seu saudoso avô e por isso lhe devotava a maior atenção, o que soava para muitos colegas quase como um tratamento condescendente. Mas Magella mesmo não se importava.
**
Numa das vezes que estava voltando para casa, ele finalmente viu quem era a dona daquele jardim tão lindo que até transbordava para a rua. A senhora estava lavando a calçada quando ele a interpelou. Primeiro pediu licença, como sempre, e depois elogiou o estado das plantas. A senhora agradeceu, mas disse que o verdadeiro mérito era delas.
Seria mais uma conversa banal trocada entre dois desconhecidos naquele breve (e mágico) intervalo na correria do dia a dia, não fosse a mulher ter confidenciado o real motivo das suas plantas serem tão vistosas:
-É um encanto, sabe? Planta que fica murchinha, mesmo você tratando bem, é porque o problema é outro. É o ambiente, sabe? Planta, como gente, tem que acordar. Aí depende da planta: pode ser um assobio, um sopro, uma canção. Mas é que aqui, no meio do concreto, a planta precisa acordar mesmo.
A questão veio muito naturalmente a Magella:
- Acordar?
- É, pra voltar a ser planta.
Quem passasse por eles naquela hora não teria dúvida: era papo de maluco. Os mais empáticos poderiam classificar com a famosa frase “é coisa da idade”, mas Magella sabia bem o que aquilo era. Era um peixão.
**
Magella voltou outro homem depois daquelas férias. Isso era o que todos no escritório diziam. Ou melhor, todos que o viam concentrado montando as planilhas no seu cubículo ou que trocavam algumas palavrinhas na hora do café na copa. Mas aqueles que o conheciam de verdade, que o conheciam mesmo, sabiam que não era outro Magella: era apenas o mesmo, só que mais intenso. Por intenso aqui se entenda mais sereno e distraído do que nunca, uma vez que estas eram suas principais características.
Depois que voltou de Manaus, seus olhos viviam se perdendo em pontos esquecidos do escritório como a janela e a planta no corredor. Não raro tropeçava em algo ou esquecia que estava conversando com alguém no meio do papo. Ele estava muito mais disperso que o comum. Como se estivesse sob efeito de algum entorpecente, diziam as más línguas.
Teve aquela vez que Ruth, estranhando sua demora em voltar do banheiro, o encontrou no corredor, ajoelhado, quase hipnotizado tocando as folhas da espada de São Jorge. Ainda um pouco chocada com a cena, a funcionária se aproximou e tocou levemente no seu ombro. Ele voltou a si, desculpou-se pela demora, levantou-se do chão e seguiu para sua mesa. Assim, muito casualmente.
**
O mais alto grau do ser é não-ser. Mas não um não-ser apenas, mas um não-ser-sendo.
Foi essa a última coisa escrita no canto inferior direito da página final do caderno. Assim se encerrou o diário de ideias, porque de agora em diante Magella planejava justamente não ter ideias.
Já gargalhara, já chorara, já se apaixonou, já enlutou. Não tinha filhos com quem se preocupar e suas samambaias pareciam estar se cuidando sozinhas desde que as “acordou”. Por que não tentar justamente algo que nunca tentara antes?
Claro, primeiro concluiria o trabalho no escritório, porque, afinal, a preocupação em deixar pontas soltas é uma mania da qual não conseguira se livrar até agora. Mas assim que se aposentasse, ah, aí sim... ele visitará aquele igapó de novo e quem sabe se fundirá ao ambiente.
**
Ruth podia jurar que ouviu ele sussurrando algo para planta. Era algo como uma canção ou uma ladainha. Ao compartilhar a informação com os amigos, alguém brincou: era um feitiço. Todos riram do “Mago Magella”, menos Ruth.
- Seu Magella merece mais respeito!
Principalmente depois de ter perdido a esposa anos atrás. Isso não era uma fofoca, era um aviso. Se ela reportou o caso era para que tomassem providências, não para que zombassem do pobre coitado!
Os lapsos nos primeiros meses, incluindo o encantamento da planta, caíram na conta da idade de Magella. O dia chegou em que sua aposentadoria foi engatilhada. Na verdade, Ricardo do RH deixou a informação sigilosa escapar porque o velho, do jeito avoado que era, podia partir sem ter uma despedida adequada.
**
Quarta-feira, às nove horas o funcionário mais antigo do departamento foi para a copa como de costume e nem desconfiou que Regina estava muito mais falante do que o normal. Quando finalmente a pauta de assuntos aleatórios se esgotou, Magella se despediu e esbarrou com bolo com velas no corredor.
“É porque o senhor vai praticamente nascer de novo”, explicou Rogério enquanto segurava o bolo de abacaxi com cobertura de chocolate. Levaram a festa para o escritório por causa do espaço e, após muitas vozes exigir o discurso, o homenageado, com aquele sorriso largo e gestos lentos, finalmente tomou a palavra:
-Estou muito feliz que todos tenham se condoído de mim e reservado uma parte do seu dia atribulado para prestar suas homenagens, mas eu gostaria de dizer que o melhor que podem fazer por mim é me esquecer.
Silêncio.
O mais completo silêncio.
Por cinco segundos.
Era possível ouvir a respiração de cada um no recinto, principalmente dos asmáticos. Então, alguém, bem sagaz por sinal, aplaudiu, sendo seguido pelos demais. Palmas, mais palmas e pronto: dissolveu-se o constrangimento.
Só mesmo ele, repetiam os colegas de trabalho voltando aos seus assentos. Como alguém poderia esquecer um sujeito como Irineu Magella? Mas o tempo passou e todos no escritório acabaram obedecendo ao pedido dele sem perceber. Todos menos Ruth e a espada de São Jorge.
Vinicius Alves do Amaral é professor de história na rede estadual do Rio de Janeiro. Desde 2012 tem publicado contos em antologias e em revistas, como RelevO e Surucu. Em 2021 publicou Vestígios Banais ao lado dos escritores Francisco Ricardo Lima e Arcângelo da Silva Ferreira.
Variações: revista de literatura contemporânea
XIV Edição, ano 5 - Verde-vago-mudanças: poéticas da natureza e suas urgências
Curadoria e Edição:
Marcos Samuel Costa e Bruno Pacífico
2026

Comentários
Postar um comentário