dois poemas de Márcia Huber

 

Miguel Chikaoka


caminho

vou lendo a paisagem
leio os nós dos ventos
o remexer das raízes
os rastros das nuvens leio
nas montanhas
leio as alturas
me ponho no meu lugar
leio os idiomas do branco
o passado das cavernas leio
na cidade
leio as ruas
leio os passantes
a cortina de sons urbanos leio
leio o asfalto
as marcações do trânsito
leio os rostos em
movimento
leio a tristeza
leio a pressa
depois escrevo o que leio
palavra por palavra
faço isso
caminhando
em lugar nenhum
os pés se alternando da terra
 
o contato com o planeta é mínimo

 

 

Miguel Chikaoka

 

sutil

 

inundar tudo
perder as bordas
desmarginalizar as águas entre nós
 
lacrar este tempo para que nada entre
nada saia
 
água confusa e indecifrável
esparramando-se pelas mãos
pelos dedos
para dar folga ao anel
 

 

Márcia Huber, nascida em Belém do Pará, passou a viver na Áustria a partir de 1990, onde obteve mestrado em filologia românica e germânica. Vive na Alemanha desde 1996 e manteve por mais de 20 anos um escritório de tradução em Munique. Trabalha como voluntária na WeCare Association, uma organização de caridade que mantém projetos de ajuda sustentável e combate à mutilação genital feminina no Quênia. Tem poemas publicados em várias antologias. O lábio é outro (O lábio é outro – Editora 7Letras), publicado pela editora 7Letras em 2025, é seu primeiro livro.





                                             Variações: revista de literatura contemporânea
                 XIV Edição, ano 5 - Verde-vago-mudanças: poéticas da natureza e suas urgências
                                                                            Curadoria e Edição:
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                                                                                      2026

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