LITERATURA QUE MARGEIA: XAVIER BARTIRA E O GUAMÃ-PARÁ NO OLHO DO FURACÃO DA PROVÍNCIA MAQUIADA – Paulo Nunes

 



LITERATURA QUE MARGEIA: XAVIER BARTIRA E O GUAMÃ-PARÁ NO OLHO DO FURACÃO DA PROVÍNCIA MAQUIADA – Paulo Nunes[1]

 

Mostre-me, aponte para o ponto e vírgula; mais fraco que o ponto final, mais forte que a vírgula. Vire-me do avesso

Apresente-me

Ressignifique o fundo do poço

(Xavier Bartira)

 

Concordemos com a ideia de que a cidade é um complexo-decomposto-esdrúxulo, uma quizila da modernidade com as estruturas estéticas maduras, quase mofadas: escrita, ‘pixos’, mídias impressas, expressão de um aglomerado humano que se faz e refaz em exclusões e seletividades, eis a instituição cidade, que brota entre matos, lamas, asfalto, concreto e flores de plástico.

II

Isto dito, abre-se a janela para encarar Belém, como um contorcido depósito de gentes, conglomerado búrburi-urbano que se instituiu literariamente a partir do início do século XX (embora já houvesse rasuras de uma pré-city em ‘Hortência’, de Marques de Carvalho, ou em passagens d’O Missionário’, de Inglês de Sousa), quando os modernistas, Bruno, Eneida, Abguar,  Bopp, De Campos, Tó Teixeira, Jaques (e mais outros) beberam o néctar líquido de Abaetetuba, tudo na cuia sagrada que foi entronizada, na Amazônia Oriental, em textos de viração de séculos: 19 e 20.

Os Modernismos brasileiros geraram, de várias barrigadas, rebentes de renovação estética de impacto sociocultural. Mas em nosso caso, lado oriental da região Norte, amadureceria, nesta cidade, capital do "país que se chama Pará", tivemos Modernismos endógenos e exógenos. Manuel Bandeira e Mário de Andrade, Clarice Lispector, Raul Bopp também são testemunhas dessa hiper estética verdade; eles andaram por aqui, com seus caderninhos de anotação ou máquina fotográfica em punho; eles e elas com as metáforas latejantes, moraram pouco (mas suficiente) tempo, ou estavam de passagem, trabalhando como “turistas aprendizes”.

III

Das conquistas que a modernidade nos propiciou (e nela o Modernismo amazônico foi decisivo) como avanço ideológico e simbólico, está o fato de se ter chutado a lata, e escancarado o portão, arrumando a cena para as vozes da periferia, que, desde os anos 20 do século passado, "chegaram chegando". Os intelectuais da geração de Bruno, quase todos pretos e de classes excluídas pelo capitalismo, embora não renegassem o beletrismo francês, perceberam que se precisava virar a mesa de cabeça, coloca-la de "de ponta a cabeça", como se diz no Sudeste do Brasil. E assim 'ouvivemos' pretos, cabocos, tupinambauaras e filhos de migrantes pobres protagonizar a cena da literatura. Dalcídio e Pinajé chegaram depois, mas mergulharam nesse rio de novas possibilidades, que nos fizeram reinventar em ebulições. A cidade e a rua ocuparam, com seus tipos e personagens, o repertório das escritas; O que a elite desprezava, a literatura passou a protagonizar.

IV

Escritoras e escritores de refino e ousadia aprenderam, nos séculos 20 e 21, as lições daquela ‘era mágica’, a escola dos peixefritanos, e desta feita puseram-se a representar literariamente os invisibilizados, os “amordaçados” e seus dramas, tão diversos da vivência das classes médias urbanas abastadas, que a literatura beletrista glorificou. Talvez o melhor exemplo desse virar de mesa é ficção verossímil de Edyr Augusto Proença. Edyr persistiu e sobreviveu no Brasil, a partir do Pará, em circuitos alternativos, até chegar à França, ser traduzido para o idioma de Balzac e através da Asfalte Editions, de Paris, que traduziu e lançou Belhell, Os Éguas (que lá virou Belém), Moscow, Casa de caba, dentre outros.

Mas não foram só autores de classe média, como é o caso de Edyr, que tiveram neste século XXI, preto e pretas das periferias que criam  literatura nas bordas de Belém vêm ganhando destaque no cenário literária da Amazônia oriental. Cito aqui Pelé do Manifesto (autor e performer fabuloso), Roberta Tavares (de escrita pulsante e forte), Preto Michel (homem de letras e promotor de ações pela difusão do livro entre as escolas públicas), Shaira Mana Josy (dos slans da TF – Terra Firme), Raimundo Sodré (o cronista que faz da Pedreira um microcosmo do Brasil). Há outros, mas estes são os que integram meu repertório de "leitor das bordas".

Esta escrita, atravessada por rasuras indígenas e afrodiaspóricas, se faz, de certo modo, monumento ‘descolonial’ quando amplia o território de fazer literário para além do centro pequeno-burguês: Jurunas, Pedreira, Terra Firme, Telégrafo, Tapanã, Benguí, Guamá. Guamá, ah! O Guamá!...

V

Pois é do Guamá (o ‘Guamares’ polisêmico de Salomão Larêdo) que desejo falar agora. Peço, antes, a devida licença às entidades que coabitam os rios e igarapés entulhados de lixo e esgotos desse bairro ligeiro e vivaz. E assim passo a lembrar que o Guamá foi ressignificado pelas ludicidades dos bois-bumbá, dos folguedos e da literatura como a República Feder-afetiva [do Guamá]. Seu Setenta, do bumbá Tira Fama, glorioso nos anos 70, 80 e 90, a Pedreirinha cantada pelo saudoso e icônico compositor Clélio Palheta, são artista que fez o Guamá se transformar num dos epicentros da resistência preta (coisa que o boi Malhadinho de Nazareno também reafirmou); um bairro da da beleza de brilhos, e de dessilêncios, movimentos e batuques. Antes, anos 60, vale lembrar, Dalcidio Jurandir, em Belém do Grão-Pará, já enfatizara o Guamá como uma imaginada comuna de barricadas, donde poderia surgir uma 'nova Cabanagem', para destronar as elites de nosso capitalismo obtuso. A orelha do livro de que estamos tratando, prenuncia: “Este livro nasce nas vivencias da periferia de Belém – no Guamá, fruto de um olhar que mistura realidade e delírio...”

VI

Dito isto, quero noticiar que me chega às mãos uma narrativa lancinante, denominada Epílogo: Jabuti-Tinga, atravessada de profundas marcas das guamaresias; escrita que remete ao pantanoso, ao turvo como as águas do rio homônimo que banha o bairro. Trata-se de romance escrito pelo jovem Xavier Bartira, editado pela Mercador, de Lisboa.

A escrita de Xavier Bartira tem linhagem e ritmo que lembram a dicção do paulista João Antônio, saudoso pirotécnico das histórias das ruas da megalópole latina: Sumpaulo. É claro que Xavier Bartira não imprime estratégias explícitas de intertextos com João Antônio, ou talvez o autor paraense nem o tenha lido ainda. Do lado cahoto, no entanto, percebe-se um parentesco de Xavier Bartira que lateja com a prosa de Edyr Augusto, Marcelino Freire e outras possíveis referências que meus olhos não conseguem alcançar.

Esta narrativa escrita “de” Xavier Bartira é provocativa e, de certa forma, experimental, provoca-se a si mesma, e “estica a corda”. Metalinguística, ela, curiosamente, inicia com a conclusão – enunciação de “ponta a cabeça”. E o narrador, em primeira pessoa, avisa: “, esqueci [sic] grande parte das coisas que ia escrever...” As armadilhas de linguagem – um dos trunfos deste texto –  provocam o leitor desde o emprego, nada convencional, da pontuação gramatical até uma possível desconfiança da legitimidade do narrador. Vejam que o romance inicia com uma vírgula, sucedida de uma sentença escrita em minúscula. Isto dá o tom do que virá em termos de linguagem. Como os elementos pretextais são índices importantes de todo texto, vale considerar as epígrafes usadas pelo autor: Maria Firmina dos Reis e Annie Ernaux. A primeira é escritora de negra brasileira, que não integra o cânone da literatura nacional, e a segunda, é professora e escritora francesa que em 2022 ganhou o Nobel de Literatura. Isto parece apontar para as diversas possibilidades de interpretar o livro – uma referência canônica, outra excluída do cânone ocidental da literatura.

A abertura da narrativa, o epílogo, que é o pórtico de entrada para leitores, trata da relação tensa entre lembrar e esquecer, e (re)lutar para não esquecer. Eis um enigma de leitura, que no meu entendimento, sustenta a trama, estabelecendo um jogo de engano com os que se aventuram a ler o texto. Afinal, como, em tempos atuais, atravessados por desinformações e fake news, se pode acreditar num narrador que esquece ‘quase tudo’ que ia narrar? Tal narrador, ao assumir seu possível lapso de memória, levanta, na sua escrita, uma forte suspeição sobre si e se deslegitima. Trata-se, como se percebe na continuação da leitura, de um jogo narrativo, a meu ver, uma pista falsa. Já na sequência, vemos que o narrador cita um trecho que ele aponta ser de James Baldwin, trecho que prenuncia uma tensão racial, que será uma das tônicas do enredo.

Epílogo: Jabuti-tinga, apesar de propor experimentações de linguagem e formas de enunciação inquietantes, insere-se na tradição das narrativas de modernidade em que a cidade é “altar” ressignificado, com seus ritos cotidianos de devoração e renascimento. Desta feita, o narrador de Epílogo: Jabuti-tinga, a meu ver, faz do Guamá um microcosmo de Belém, a city-cinza, que queima, uma e-cid@de, que abriga em suas palafitas, vielas, baixadas e asfalto lancinantes dramas humanos.

Nem de longe deve-se pensar numa obra “regionalista”. Não, embora o Guamá seja o território de destaque, nesta narrativa-ode o que se vê é a extensão daquela tradição “peixefritana” iniciada no princípio do século XX, traz a periferia alçada como centro, donde encenam-se os dramas humanos do narrador-personagem, que, em certa passagem, afirma: “na infância, o bullying foi minha primeira lição de violência, mas não a única...” (p.12).

Observa-se que na literatura produzida hoje, se não em toda, em parte dela, percebemos, que a contemporaneidade, forja artefatos literários, reflexivos e problematizadores ante a questões cruciais que afligem a humanidade. Xavier-Bartira, leitor, professor, acadêmico de Letras, não abdicou, neste seu romance de estreia, de fazer ilações acerca de alguns dilemas que afligem seu alter ego: o “ser preto”, gay, estar na Amazônia e escrever a partir das margens do Brasil, a Amazônia, que já, per si, é vista como uma região marginal. Afinal quem deseja saber dos dramas existenciais de alguém que habita as margens? Ter interlocução, obter um ouvido que escute é talvez a maior angústia.

Entre o psicológico e o panorâmico descritivo, o que domina essa 'ficção na vera', recriada por Xavier Bartira são as angústias, os dilemas das pessoas, digo, das personagens, sobretudo o personagem forte que se lhe nos oferece como um alter ego do próprio autor. Mas paremos de prolegômenos. Peçamos que se leia, com imprudência a prosa, desenrole-se este ‘novelo’, que abre novas veredas nos igarapés entulhados da novíssima literatura intensa produzida em Belém. Nossa geopoética urbana está enriquecida com esta narrativa que chegou às livrarias nestes meados de 2026. No mais, leia quem deseja se renovar. A renovação através da leitura é uma espécie de religare; um religare que desaliena, acredite.

VII

A narrativa finda (finda?) com um petardo poético: “... o prólogo retorna como quem retorna à casa lama sal sangue palavra o rio que nasce no Guamá, atravessa o corpo e volta para casa...” Xavier-Bartira batizou-se nas águas da ficção, águas turvas para leitor mergulhar. Mergulhemos, eis o desafio.

Paulo Nunes. 15 de agosto de 2026.



[1] Professor da Universidade do Estado do Pará; ensaísta e poeta; autor, dentre outros de Dalcidio Jurandir, o reinventor do caroço de Tucumã, Belém, IOEPA, 2022.





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