PERUAÇU - crônica de Joema Carvalho
| Aldemir Martins |
PERUAÇU
A montanha de
rochas pré-históricas seguia em paralelo pela rodovia. Dinossauros ocupavam o
nosso entorno. Eram indiferentes a nossa presença. O tempo caminhava através do
balanço da calda daqueles gigantes e nos empurra para frente.
Paramos. Descemos
do carro e percorremos pela trilha. Estávamos tocando aquelas rochas. A
Montanha se mantinha em paralelo. Ainda éramos insignificantes aos dinossauros
que estavam todos pertos de nós. Filhotes de coral pela trilha, brindavam o
momento como algo inesperado. Um contraste laranja, no meio do solo e das
rochas escuros e o verde da vegetação densa. Recém-nascidos, já vinham com
autonomia para continuar sua história sem a proteção materna, ao contrário de
nós.
As frutas dali nos
brindavam junto da paisagem antiga. Um sabor deslumbrante de ter mais uma
oportunidade a mais de vida. A trilha exigia concentração. Longa, estreita, nos
levou primeiro para o cânion daquela mesma montanha. Onde dinos sauros alados
faziam rasantes, como os condores nos andes. O formato pontiagudo daquelas
rochas, tinham algo de gótico. O sagrado não precisava de templo. Estava ali,
em puro Gênese. Aquele vazio preenchia meus poros de abundância.
A trilha exigia o
nosso centro. Se fossemos para o passado ou futuro, o risco marcaria a
história, deixando para trás a oportunidade. Peçonhentos, ferroadas, muitas
lascas de rochas soltas e desnível entre uma rocha e outra. O medo poderia ser
perdido ali, uma grande oportunidade.
O tempo presente e
a sua relatividade e incerteza tinha que ser mantido. O tempo presente se
alinha com o centro do corpo e linka com a intuição. Ingredientes para se
caminhar na harmonia junto ao desconhecido.
O tempo varia com
o momento. As vezes passa rápido ou demora e cada qual sabe do seu tempo.
Quando mais se faz, mais eles nos propicia o seu recurso.
Dentro daquelas
rochas, a marcação do tempo se fazia quando as mudanças climáticas faziam
parte. Hoje, elas questionam o conceito de posse a matéria. A perda do controle
daquilo que julgávamos certo. Eras secas marcadas em camadas mais 24 escuras,
seguidas por camadas de tons mais claros, época chuvosa, períodos quentes, eras
glaciais. Quanto maior a concentração de carbono, menor a biodiversidade, assim
se fez no início da formação da crosta e assim, tende o nosso retorno,
trilobita. No meio de lixo, nossa carcaça sedimentada por compressão e pressão
de nossa essência.
As águas verdes
cristalinas que vinham de dentro daquelas cavernas refletiam nossa sombra e
dali, entre rochas testemunhas, não tínhamos como escapar de nossas ações. Tudo
retornava em igual proporção. No emaranhado do plantio e colheita certa.
Voltamos ainda mais no tempo. Dentro de uma das cavernas, minha proporção era 100 vezes inferior. Na outra, mais desgastada pela ação do tempo, 200 vezes. Me senti tão pequena foi tão impressionante aquela imensidão. O tempo dizia onde estávamos. O vento conduzia nosso caminho. De passagem chegamos e retornamos. No buraco negro da história, pós galácticos buscando poesia.
Joema Carvalho: Engenheira florestal e escritora. Autora dos livros: Crônicas de Uma Jornada Florestal (2024) e Luas & Hormônios (2010,2020) e coautora do Entre Botânicas Decoloniais: As frutas silvestres de H. D. Throreau e as frutas brasileiras (2022). Organizadora do Tuíra (2020,2022). Participou de coletâneas nacionais e internacionais e de projetos literários. Membro da Academia Poética Brasileira – APB, Academia Brasileira de Letras – ABL Paraná e do Grupo de Ecocrítica – GECO/UFPR.
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