RESENHA: O amor dorme no peito [antologia de contos homoeróticos] - Gutemberg Armando Diniz Guerra
RESENHA: PAES, Genisson, e COSTA, Marcos Samuel (Organizadores). O amor dorme no peito [antologia de contos homoeróticos]. Barueri: Editora Nauta, 2026.
Gutemberg Armando Diniz Guerra
Conheci os organizadores deste livro em situações diferentes. Com o Genisson Paes tive convivência no Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares, fazendo mestrado e doutorado no Programa de Pós-Graduação em Agriculturas Familiares Amazônicas. O Marcos Samuel Costa eu conheci por indicação do Professor Paulo Nunes, por ele ter sido seu aluno e ser o editor da Variações Revista de Literatura Contemporânea, em que comecei a publicar crônicas e resenhas, diversificando meu leque de opções para este fim. As aproximações se consolidaram quando ambos começaram a me solicitar opiniões sobre textos que tinham elaboração em andamento.
Estive no lançamento da antologia aqui resenhada, na Casa Arari, em Belém, local que vem se constituindo em uma importante trincheira dos livros editados em papel por autores paraenses. O público era proporcional ao tamanho do espaço acolhedor e íntimo da livraria, mesmo que as pessoas não se conhecessem a priori. Adquiri o livro em destaque e alguns outros que me faltavam ler, também ali lançados.
A primeira capa de "O amor dorme no peito" chama a atenção pela exposição em close da pintura a óleo de Konstantin Somov, datada de 1937, com a sugestiva imagem de um jovem nu dormindo. Na quarta capa, além do jovem nu, a lista dos autores em ordem alfabética provoca impacto por serem todos homens e, de certa forma, dar o tom do conteúdo homoerótico que ali viria a ser exposto, conforme revelava explicitamente o subtítulo.
Conheci e conversei, naquela mesma noite do lançamento, com mais dois dos autores que estavam ali presentes e fariam parte de um bate-papo com o público. Durante o diálogo aberto com os autores e o Marcos Samuel como organizador, comentei, ressaltando a importância do evento por projetar o respeito que se deve à diversidade de gênero ali representada por alguns deles. Eu não tinha lido nem superficialmente nenhum dos textos e me ative nesta fala à importância do evento.
Li os textos tentando associá-los ao breve relato e dados biográficos de cada autor apresentado na última sessão do livro. Alguns aspectos me chamaram a atenção, logo de início, como o fato de que tanto Genisson Paes, quanto Marcos Maciel e Gabriel Marinho se reportam a ambientes ribeirinhos amazônicos. Eles têm origem em Cametá, Ponta de Pedras e Belém, ambientes anfíbios e que aparecem como cenários de seus textos, com detalhes que exigem um conhecimento da fauna e flora regional.
A sequência dos textos não obedece à ordem alfabética apresentada na folha de rosto e na quarta capa, o que provocou a curiosidade de saber se haveria alguma outra lógica estabelecida para o encadeamento da obra.
Correndo o risco de fazer interpretações equivocadas, preconceituosas ou por ignorância do ambiente e do crescimento da receptividade deste tipo de literatura, considero dois aspectos a serem analisados. Primeiro, a qualidade literária e estética dos textos e, segundo, o assunto que tem sido, ao mesmo tempo, um campo de denúncia das discriminações e um nicho de resistência e defesa da diversidade de gênero.
Na observação do conjunto da antologia, observa-se predominância de 15 textos escritos na primeira pessoa do singular, contra 7 na terceira pessoa, dando a impressão de que o eu literário ora esconde, ora mostra maior ou menor proximidade do que vem ali narrado com fatos biográficos, com preservação de identidades e distanciamento comum nas obras de ficção, que, no caso em análise, me parece muito mais uma espécie de manifestação militante ou de resistência às agressões dirigidas aos que fogem ao padrão da heterossexualidade. Alguns textos têm linguagem direta, explícita, dentre outros, arriscando-se no campo minado entre o erotismo e a pornografia, encontrando-se também experiências escatológicas, platônicas, bizarrices e senso comum, incluindo-se no leque dos textos a palavra crua, as metáforas, a historiografia e as parábolas.
Constata-se que há narrativas que incluem relações intergeracionais, com menção a preocupações etárias, familiares e de grupos sociais específicos em que a homofobia se manifesta com mais evidência, como nas turmas de adolescentes em estabelecimentos educacionais ou em convívio por proximidade de vizinhança ou ambiente laboral.
Estes comentários são superficiais e reativos a uma primeira leitura do material, que é rico de detalhes, elucidando um universo rico de comportamentos muito diversificado, eivado de sentimentos e ressentimentos, repressão e violência, mas também de afeto e resistência, dificuldades e superações, merecendo uma análise qualificada por pessoas que tenham mais habilitação para compreensão deste universo.
Não posso deixar de firmar a admiração e o reconhecimento pela ousadia do empreendimento que, a despeito do que possa ser a recepção dele no ambiente social em que se insere, merece consideração e respeito.

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