3 poemas de Alerto Bia

 

Da série EGOSHOT. Foto: Flavya Mutran



 

1.    incedium latens

 

há um fósforo por acender.
a palavra que no poema cabe, menos ainda.
em cada coisa parada
há qualquer coisa que se move
e, no entanto, já arde.
a tua boca também está parada,
a mesa. a chávena. o prego na parede,
mas a cera já escorre por dentro da vela apagada.
só eu sei que as mãos continuam a queimar
depois do incêndio.
e que são palavras
as que lhes escapam de noite,
quando ninguém as pronuncia e tudo parece intacto.
pela manhã,
o fósforo permanece na borda do fogão
por acender
como se o fogo não tivesse começado antes.

 

 

2.    a possibilidade de um rosto

 

rosto.

apenas a possibilidade borrada de um rosto.
entre a fotografia e a aranha morta na teia,
uma sombra substitui o corpo.

vê-se ainda a luz que não apagou de todo.

o pó devora a pequena vida
por baixo da escuridão.


3.    isto

 

não entendo que a toalha corte a respiração,
nem que o mármore cresça cogumelos.

não.

não entendo que, entre todas as matérias,
a escuridão distorça o ar que atravessa os pulmões,
como a borda de espuma na boca do mar.

 

 



Alerto Bia nasceu em Inhambane (região sul de Moçambique) a 02 de Março. É licenciado em ELT (English Language Teaching ) pela Universidade Pedagógica. Frequenta actualmente Licenciatura em Filosofia pela Universidade Save. Lecciona Inglês na E.S 4 de Outubro – Maxixe. Foi associado do CEPAN (Clube de Escritores, Poetas e Amigos do Niassa). Participa de antologias nacionais e internacionais. Escreve para jornais e revistas. Obras publicadas: Sonhar é ressuscitar (Maputo: Livres editores, 2016), Sombras Cálidas (Brasília: Editora do Carmo, 2017), O desassossego por dentro (Belém: Editora Folheando, 2021. [ Prémio Internacional Literatura e Fechadura, 2020]" O ardina de sapatos gastos (Beira: Editora Fundza, 2022). Os túmulos de Amirah (Maputo: Gala gala edições, 2025).


                                              Variações: revista de literatura contemporânea

                       XV Edição, ano 5, vol. 05, n. 02  - Urbanidades, poéticas e desconceituações: 
                                                           viver no limite do absurdo
                            Curadoria e Edição: Marcos Samuel Costa e Bruno Pacífico
                                                                             2026

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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