A pátria de bandeira - Gutemberg Armando Diniz Guerra

 



A pátria de bandeira1

Gutemberg Armando Diniz Guerra

                A expectativa do hexacampeonato na Copa do Mundo de futebol se reacende nos brasileiros a cada competição que se repete de quatro anos em quatro. A distância das performances entre os anos de 1958, 1962 e 1970, estendidas pelos triunfos de 1994 e 2002, tendo sido vice em 1950 e 1998, dá a dimensão da importância simbólica da representação que esta modalidade tem no imaginário popular brasileiro. De 23 edições, o escrete nacional esteve presente em todas, sendo que em 1/3 delas esteve no topo, como a primeira ou segunda melhor colocada.

A venda de material esportivo ou alusivo a este momento, como bandeiras, toalhas, camisas, calções, meiões, chuteiras, chaveiros, álbuns de figurinhas, taças, copos e canecos, são apenas os mais evidentes, e a sociabilidade se exacerba em grupos que se reúnem em torno de telas, telinhas e telões para torcer pelo time nacional, como se estivéssemos em uma guerra da qual dependesse a vida ou a morte.

Andar nas avenidas, ruas e principalmente nos bairros populares é imergir em um clima de festa, como se estivéssemos nas arquibancadas dos estádios onde as competições se realizam. As opiniões dos torcedores competem em dramaticidade com as dos locutores e comentaristas contratados como especialistas para analisar cada lance, cada gol, cada juízo da arbitragem, que se multiplica em presenças e câmeras para validar ou invalidar movimentos dos contendores. É como se todos estivessem mesmo calçados, vestidos e investidos com todos os equipamentos identitários para jogar cada partida, o que teria inspirado Nelson Rodrigues a descrever estes momentos em suas crônicas como se a todos os patrícios estivesse de chuteiras.

De uns tempos para cá, o nacionalismo ganhou força por conta das disputas eleitorais com a apropriação pelos partidos conservadores do símbolo heráldico, tanto quanto pela camisa da Confederação Brasileira de Futebol, fazendo com que os que se declaram à esquerda se sentissem alijados, distanciados, deserdados desses artefatos simbólicos. Houve uma retomada dessa unidade no momento de expectativa renovada de triunfo, com o visual verde-amarelo ganhando as ruas, os estabelecimentos comerciais, a indumentária, as janelas, varandas, sacadas, telhados e veículos de pequeno, médio e grande porte circulando com a esperança do hexacampeonato.

O fracasso da equipe brasileira nas oitavas de final da Copa de 2026, com a derrota para a Noruega, esfriou as expectativas, frustrando a esperança do sexto título de campeão. Com este fato, a vida dos brasileiros voltou à monótona normalidade, mas o cenário não se desfez por completo. Ainda há muitas ruas enfeitadas com bandeirinhas, janelas exibindo o pavilhão nacional, calçadas e pavimentos asfálticos resistindo ao entusiasmo como testemunhas de uma torcida fiel e persistente, e muitas pessoas ainda se mostram vestidas com a camisa canarinho, como se ainda houvesse jogo a exigir torcida e vibrações positivas. Se não foi dessa vez, haverá uma outra, daqui a quatro anos, em que muitas dessas marcas ainda estarão por lá.

Embora a bandeira aberta ainda esteja em muitas fachadas, ela está simbolicamente enrolada, ensarilhada para quando a esperança for reacendida, renovada e fizer vibrar os corações dos que mantêm a fé em triunfos e festa por um hexacampeonato mundial.  


[1] Enviado para Variações Revista de Literatura Contemporânea em 7/8/2026 às 17:31 horas.

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