Narrativas de Franck Santos

 


Da série DELETE.use. Foto: Flavya Mutran


 Ana, uma amiga, contou que quando trabalhou numa loja de cosméticos, uma mulher ia todas as manhãs se maquiar e se perfumar. Até que a proibiram de usar os produtos. Mas a mulher implorou para que a deixassem seguir com o seu ritual de beleza, que fazia isso para ir trabalhar, que o seu salário não a permitia comprar maquiagens e perfumes.

Ana disse que viu ontem essa mulher dirigindo um carro de luxo e ficou se perguntando se a mesma desde aquela época economizava não só com maquiagens e afins para ter bens duráveis, como o carro que ela dirigia, ou se ela gostava de viver experiências que denominaram de “gourmetização da pobreza”

 

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Coincidentemente, vi no mesmo dia duas entrevistas com o escritor Valter Hugo Mãe. Numa das entrevistas ele estava em um programa de televisão e a outra num aeroporto. As entrevistas tinham contextos diferentes, mas vi nas falas do escritor um fio condutor entre as duas.

Na televisão, ele falou da morte e das perdas de entes queridos, como isso o fez engordar e buscar a “reinvenção do corpo”. No aeroporto, quando questionado quais as experiências mais marcantes com a profissão, uma das citadas foi ter sido convidado por presidentes e reis de vários países para jantares, e que preferia jantar no Brasil por ter como sobremesa pudim de leite.

Valter Hugo Mãe, assim como eu, somos pessoas que sofrem com mortes e adeus, mas sabemos do prazer que é em saborear um doce.

 

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Quando minha amiga Sílvia morreu, não apaguei seu contato no WhatsApp. Vez em quando rolava a tela e via seu nome e sua foto lá.

Hoje, quando fiz isso, tinha a imagem de outra pessoa. Liguei, quem atendeu disse que o número agora era de uma sobrinha dela.

Deletei o contato. Me dei conta que agora Sílvia tinha morrido de verdade.

 

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Duas vezes ao dia alimento a indústria farmacêutica tomando medicações para hipertensão, para ansiedade e para dormir. Para que a pata de um elefante não caia sobre o meu peito.

Duas vezes ao dia cruzo a cidade e não consigo me concentrar nas músicas da minha playlist, porque estou preocupado com o trânsito e os engarrafamentos, enquanto espero a manada que também dirigem atravessarem os seus caminhos de ida e volta para casa.

Duas vezes ao dia não atendo o interfone de casa ou o celular e nego comida. Nego caridade. Nego abrigo. Nego assinaturas. Nego água. Nego receber as entregas que esperei. Nego convites para sexo, para saraus e para cafés.

Duas vezes ao dia tenho medo. Tenho angústia. Tenho sobressaltos. Tenho lágrimas. Tenho raiva. Tenho solidão. Tenho vergonha. Mas antes que todos esses sentimentos sejam maiores que a coragem, durmo e sonho com Virginia Wolf engolindo um rio.

Duas vezes ao dia.

Duas vezes ao dia.



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 Franck Santos é maranhense, professor de geografia e autor de livros de poemas, contos e romances





                                               Variações: revista de literatura contemporânea
                           XV Edição, ano 5 - Urbanidades, poéticas e desconceituações: 
                                                           viver no limite do absurdo
                            Curadoria e Edição: Marcos Samuel Costa e Bruno Pacífico
                                                                             2026

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