Narrativas de Franck Santos
| Da série DELETE.use. Foto: Flavya Mutran |
Ana
disse que viu ontem essa mulher dirigindo um carro de luxo e ficou se
perguntando se a mesma desde aquela época economizava não só com maquiagens e
afins para ter bens duráveis, como o carro que ela dirigia, ou se ela gostava
de viver experiências que denominaram de “gourmetização da pobreza”
***
Coincidentemente,
vi no mesmo dia duas entrevistas com o escritor Valter Hugo Mãe. Numa das
entrevistas ele estava em um programa de televisão e a outra num aeroporto. As
entrevistas tinham contextos diferentes, mas vi nas falas do escritor um fio
condutor entre as duas.
Na
televisão, ele falou da morte e das perdas de entes queridos, como isso o fez
engordar e buscar a “reinvenção do corpo”. No aeroporto, quando questionado
quais as experiências mais marcantes com a profissão, uma das citadas foi ter
sido convidado por presidentes e reis de vários países para jantares, e que
preferia jantar no Brasil por ter como sobremesa pudim de leite.
Valter
Hugo Mãe, assim como eu, somos pessoas que sofrem com mortes e adeus, mas
sabemos do prazer que é em saborear um doce.
Quando
minha amiga Sílvia morreu, não apaguei seu contato no WhatsApp. Vez em quando
rolava a tela e via seu nome e sua foto lá.
Hoje,
quando fiz isso, tinha a imagem de outra pessoa. Liguei, quem atendeu disse que
o número agora era de uma sobrinha dela.
Deletei
o contato. Me dei conta que agora Sílvia tinha morrido de verdade.
Duas vezes ao dia alimento a indústria farmacêutica tomando medicações para hipertensão, para ansiedade e para dormir. Para que a pata de um elefante não caia sobre o meu peito.
Duas
vezes ao dia cruzo a cidade e não consigo me concentrar nas músicas da minha
playlist, porque estou preocupado com o trânsito e os engarrafamentos, enquanto
espero a manada que também dirigem atravessarem os seus caminhos de ida e volta
para casa.
Duas
vezes ao dia não atendo o interfone de casa ou o celular e nego comida. Nego
caridade. Nego abrigo. Nego assinaturas. Nego água. Nego receber as entregas
que esperei. Nego convites para sexo, para saraus e para cafés.
Duas
vezes ao dia tenho medo. Tenho angústia. Tenho sobressaltos. Tenho lágrimas.
Tenho raiva. Tenho solidão. Tenho vergonha. Mas antes que todos esses
sentimentos sejam maiores que a coragem, durmo e sonho com Virginia Wolf
engolindo um rio.
Duas
vezes ao dia.
Duas
vezes ao dia.


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