Resenha: Migrações das palavras ditas ao vento

 


RESENHA:


VIEIRA, Paulo. Migrações das palavras ditas ao vento.Setubal, Portugal/Cotia, São Paulo, Editora Urutau, 2026.

Gutemberg Armando Diniz Guerra



    O livro Migração das palavras ditas ao vento me chegou pelos correios. Fininho, pequenino, com poemas curtos, somando um total de 45. Peguei nele como quem carrega um recém-nascido, porque recém-nascido era. Havia há pouco conhecido a luz da impressão e edição. Li, depois, me impressionando com a densidade que ele continha, apesar do pouco volume físico. Reli, nessa segunda vez armado de muita atenção para fazer registros e organizar, como sempre faço, como resenha, para publicar por aí! 

Não é de muitos versos nem mesmo de muitas palavras, que se fazem poemas densos de humanidade e sentimento, mas de palavras bem-ditas, colocadas sistematicamente, calculadamente, como lâminas afiadas para cortar a carne e sibilar no vento. Mais do que isso, a densidade dos versos vem embalada no ritmo, nos espaços do não dito, no silêncio entremeando os fonemas, no puxar diálogo pela postura de quem está mesmo a conversar com o outro que o poeta coloca diante de si, às vezes, sendo este, ele próprio. É isso: Paulo Vieira faz versos dialogando com o leitor ou consigo mesmo! Gosta de muita conversa, em prosa e verso. Seus poemas são armadilhas para capturar incautos, justamente aqueles que dizem não gostar deles, poemas. Ele, Paulo, os veste de transparentes indumentárias, despertando curiosidade de olhar mais detalhadamente, atentamente, pelo buraco da fechadura, pela fresta da janela, pela porta entreaberta.

Toda vez que leio qualquer coisa por ele escrita, fico sempre a me perguntar qual é o grau de consciência que ele põe em cada construção que faz. Como ele usa os recursos estéticos que aprendeu nas conversas com o Professor Benedito Nunes na Travessa da Estrela. Mais ainda, ele se debruçou sobre a obra de Max Martins e dali produziu uma leitura como tese muito bem elaborada e defendida na Universidade de São Paulo. O livro que publicou desse registro está disponível por aí (VIEIRA, 2017). O mais forte, penso, no que ele elabora, não é o que ele concretiza, materializa, mas a coragem de expor com intensidade, com muita convicção, satisfeito do que produziu, com a certeza de que vai provocar comentários, críticas, aprovações e contestações, reflexões e améns. Os livros de Paulo Vieira não se repetem nem no estilo, nem nas editoras, nem nas edições, nem no público que visa, nem em outros aspectos que possam me ter passado despercebido. Ele está sempre surpreendendo o seu leitor mais atento, mais frequente, mais fiel.

Gosto muito, nesse livro de poemas que saiu como quem navega nos ares, desde a apresentação que o poeta Paulo Vieira faz questão de fazer de si mesmo, assumindo, digamos assim, o seu lugar de fala.  

Autorretrato.

Eu não sou aquele que esperava ser/

nem o outro que esperavam que eu fosse/

só o romantismo ainda hoje me desvela/

não o romantismo dos amores de novela/

mas aquele que em 1871/

levou o poeta Charles Baudelaire /

a lutar nos confrontos de rua/

da comuna de paris (p. 13).

Nessa apresentação e em outros poemas do livro, o apelo dialético é evidente. A interrogação básica shakespeariana do ser ou não ser, a interrogação e a dúvida sempre na frente da certeza, como ponto de partida. Se me perguntarem o que acho disso, digo que gosto desse olhar, ou melhor desse se dizer em dúvida, em permanente contradição com os pré-conceitos estabelecidos como permanentes, imutáveis, incontestáveis. 

O poeta Paulo Vieira é um viajante, um tripulante das palavras que ele conduz e que o conduzem a mundos e gentes que não se arriscam tanto quanto ele nesse exercício da vida, do qual a literatura faz parte, tanto quanto a música e as performances que ele pratica, tanto quanto qualquer arte que se pratique. 

Aonde vão as palavras ditas ao vento [aqui cabe tanto um ponto final como um de interrogação].

A tarde se inclina para ver passar

/a migração das palavras ditas ao vento

/ninguém gosta de poemas tristes

/além de mim e você/

além de quem insiste que não gosta/

ninguém mais gosta de poesia/

palavras riscam a tarde, rompem nuvens/

se chocam contra o azul e se estilhaçam/

daí o sangue no horizonte/

que precede a noite onde/

a lua organiza vogais/

e sílabas sobreviventes/

estrelas acendem velas ao silêncio. (p. 19).

Incluo ainda um poema que considero oportuno pelo momento político do país: 

Luta e arte

Morrer um pouco ontem,

Viver um tanto hoje

Nisso consiste a existência:

Uma parte dela é luto interminável

Em contraste com a outra parte

Que é luta e arte. (p.16).

E porque esse livro é muito provocante, insinuante, inspirador, digo, para finalizar a quem se arrisque a ler, reler, aceitar ou contestar, que ele não trata apenas da migração nem das migrações das palavras ditas ao vento. Ele trata de palavras ancoradas em cada um de nós como cultura ancestral, cujos sons nos despertam sentimentos muito mais extensos de que nossa existência biológica sugere. São palavras incrustadas em nosso DNA humano, desde o início do universo, em vibrações que estão sistematizadas e nos permitem comunicar entre nós. E o vento, o que ele faz aqui? Ele é apenas um sopro, uma provocação, também, como a vida!

Conheço Paulo Roberto Vieira desde o início dos anos 2000, quando ele era aluno e eu docente do Programa de Mestrado em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável do Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares, da Universidade Federal do Pará. Fui seu orientador, quando ele produziu uma dissertação sobre os usos da capoeira em Garrafão do Norte, no mesmo Estado do Pará. Depois fez doutorado em Literatura na Universidade de São Paulo e enveredou pelo caminho dessa arte, publicando regularmente livros que já passam de uma dezena.

É engenheiro florestal de formação na graduação, mas possui uma sensibilidade apurada para os aspectos socioambientais, o que merece atenção por nos oferecer uma visão ampliada do que seja a vida no campo, muito mais do que calcada nos aspectos produtivos da agricultura, mas ancorada nas relações socio-culturais. Sua obra merece ser visitada, lida, esquadrinhada pela riqueza que contem! Confiram!  





REFERÊNCIAS


VIEIRA, Paulo Roberto. KANASHIRO, M. ; GASPAR, S. M. M. ; FERREIRA, F. N. Criança, Floresta, Poesia: Literatura e arte em defesa da Amazônia. 1. ed. Brasília: Embrapa, 2025. v. 1. 56p.


VIEIRA, P. R. Tao Te Xingu. 1. ed. Belém: Mezanino Editorial, 2024. 88p.


VIEIRA, P. R. Livro de Imaginacéu. 1. ed. Belém: Mezanino Editorial, 2024. 160p.


VIEIRA, P. R. Vieira nem beira: poemas escolhidos pelo autor. 1. ed. Belém: Amo, 2021. 154p.


VIEIRA, Paulo. R. Belembrada. 1. ed. São Paulo: INTERMENIOS, 2019. 110p.


VIEIRA, P. R. Arte, Erotismo, Natureza e Amizade: Os diários de Max Martins. 1. ed. São Paulo: Intermeios, 2017. v. 1. 187p.


VIEIRA, P. Roberto. Pablo no mundo das nuvens. 1. ed. Belém: FCP, 2016. v. 1. 69p.


VIEIRA, P. R.; Daniel da Rocha Leite. Peso Vero. 1. ed. Belém: vieiranembeira, 2011. v. 1. 65p.


VIEIRA, P. R. Livro Para Distração na Tragédia. 1. ed. Belém: Fundação Cultural Tancredo Neves, 2009. 76 p.


VIEIRA, P. R. Retruque Retoque (livro / disco). 1. ed. Belém: Edição do Autor, 2009. v. 1. 65p.


VIEIRA, P. R. Livro para pescaria com linha de horizonte. 1. ed. Brasilia: Embrapa - Informação Tecnológica, 2008. v. 1. 80p.


VIEIRA, P. R. Orquídeas Anarquistas. 1. ed. Belém: Instituto de Artes do Pará, 2007. v. 1. 75p.


VIEIRA, P. R. Infância Vegetal. 1. ed. Belém: Instituto de Artes do Pará, 2004. v. 1. 116p.

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