UM CONTO DE L. G. VELANI

 

L. G. Velani.


Übermensch dá aulas de História


Hoje vocês ficam aí, espantados a cada palavra que eu falo, mas naquela época ninguém sequer olhava na minha cara direito, quando conseguia duas conversas decentes depois de mais de cinquenta bundas sentarem no banco traseiro do meu carro era muito. Era uma época complicada pra mim e pra todo mundo, o mundo de repente ficou louco, pessoal cansou de ser bonzinho, amar os vizinhos e respeitar as diferenças, e começou a querer resolver na porrada, compensar com agressividade o vazio que era cada vez maior e devorava a saúde e a vontade de viver de todo mundo. Por um tempo eu até achei bom, quer dizer, não bom, bom, mas interessante, porque poderia ser no fundo no fundo uma tentativa de fazer as coisas de um jeito diferente. Mas vocês sabem que tudo virou essa merda que virou, quem foi que falou que não tem buraco em que o Brasil caiba? Podem riscar Brasil e colocar o mundo inteiro. O mundo inteiro ficou dominado por aqueles ianques imperialistas criminosos de guerra tarados por dinheiro, um punhado de gente escrota que nunca teve nem noção do que fosse trabalho, porque ficar no ar condicionado comendo do bom e do melhor enquanto analisa como vai continuar o domínio sobre a população mundial não é um trabalho. Trabalho é acordar às cinco da manhã pra ir buscar madame no aeroporto e depois ficar meia hora limpando os pelos do cachorro da filha da puta, que ainda não parava de latir, mesmo enquanto ela falava no telefone sobre a falta de profissionalismo da mulher que ela tinha contratado por um salário de fome pra lavar as cuecas do marido e deixar sua casa “impecável” de limpa. Foi me dando uma mistura de revolta com nojo, já chequei o porta-luvas pra ver se ainda tinha sacolinha plástica ali dentro, para o caso de precisar vomitar de tanto ouvir besteira preso naquele maldito engarrafamento. Mas talvez ela estivesse querendo ser demitida, não queria perder o fundo de garantia, falei na maior boa intenção, só querendo travar um diálogo. Pra quê? Parecia que eu tinha me transformado num demônio: a mulher começou a berrar, esbugalhou os olhos, cara toda vermelha, falou que era por causa de gente como eu que o país tinha virado essa merda, que trabalho honesto não matava ninguém, que tinha dado uma oportunidade pra pessoa não passar necessidade, se não fosse por esse emprego, nem roupa os filhos dela teriam, que era só o que faltava, em plena segunda-feira de manhã, indo pras suas merecidas férias, ela tinha tido o desprazer de chamar um uber comunista. Na hora já imaginei toda a cena, eu parando o carro no meio da vinte e três de maio, aquela freada brusca que iria jogar o cachorro de focinho no para-brisa, dizendo pra ela que comunista era o caralho, se ela conseguisse tirar a cabeça do cu e olhar em volta veria que o dia a dia não é o faz de conta que ela vê na rede social, que enquanto ela está indo se entupir de chocolate suíço tem gente que chega no fim do mês sem saber como alimentar os filhos, que o desespero não cabe em nenhuma ideologia, já me imaginei tirando as tralhas dela de dentro do meu carro e vazando antes que lhe partisse a cara, mas aí pensei melhor, não iria entrar no joguinho dessa maldita, tudo o que ela queria era uma boa confusão pela manhã, pra depois eu ter que voltar pra minha vidinha e ela sair com o sorrisinho de quem tem um tempão pra perder nessas demonstrações de superioridade social, e no fim do dia ela teria razão, pedi desculpa pensando que assim talvez ela pudesse não me dar uma nota tão ruim pela corrida no aplicativo no fim das contas, o que mais eu podia fazer? Pensando melhor, nem precisa anotar essa parte, vocês parecem uns tarados, anotam cada palavra que eu falo, vão quebrar a cara, a maior parte é só pra passar o tempo mesmo. Já que vocês ficam o tempo inteiro na iminência de pegar no sono, falando pelo menos eu preencho esse vazio silencioso, quem sabe alguma coisa gruda na cabeça de vocês, tomara que só as partes boas. Aí, já estão anotando de novo, eu não sei mais o que fazer.

 

 

Aquele tempo foi o auge da tal alienação da classe trabalhadora: era só passar um dia comigo que você ia ficar de cara com o tanto de gente pobre se achando elite hahahahaha. Maluco me chama no aplicativo e entra no meu carro achando que contratou um chofer, fala no aifone parcelado em quinze vezes sobre assuntos da mais absoluta insignificância achando que é executivo de multinacional gringa, paga uma banca enorme e depois sai sem dar nem 50 centavos de gorjeta... O bagulho era doido, deve ter sido essa coisa de rede social mesmo, o sujeito criava uma conta no tal Instagram e uma semana depois achava que precisava postar foto igual rico, com roupa de rico, comida de rico, e aí começava a falar daquele jeito escroto de rico escroto cafona metido a besta, que nem rico é de verdade. O quê? Ninguém sabe o que era o Instagram? Não se preocupa com isso, vocês vão entendendo com o contexto. Dava uma vontade de falar: sai desse palco, meu amigo, que você é pobre pra caralho, quem é rico uma hora dessas nem acordou, e quando acordar vai ter um puta café da manhã só de coisa cara esperando por ele, e depois, se ele for se locomover de carro, vai ter um motorista profissional esperando por ele, não um uber fodido como eu, mas um sujeito de uniforme engomado, provavelmente com um Bentley ou coisa do tipo, esse tipo de carro que você, que está achando que tá melhor do que eu por estar aí no banco de trás, precisaria trabalhar a vida inteira pra economizar o dinheiro pra comprar só as rodas e os pneus. Enquanto eu vou te deixar na estação de metrô nesse horário de pico, o chofer do rico, beeeem mais tarde, porque lembra que ele ainda está dormindo, beeem mais tarde vai deixar ele no heliponto, você sabe que enquanto se espreme nas latas de sardinha lá embaixo da terra em cima da sua cabeça tem uma das maiores quantidades de helicópteros do mundo voando pela cidade, e decerto em nenhum deles tem gente que perde tempo tirando fotinha sorridente pra impressionar quem quer que seja, gastam o tempo é pensando em formas de sugar mais o sangue de otários feito você. Nunca consegui falar isso pra ninguém na época, mas se falasse também não ia adiantar nada, os ancestrais de vocês viviam numa bolha, devia ser pra esquecer o medo da morte, viviam a vida inteira nesse mundinho de faz de conta e depois pá-bum, acabava e pronto.

 

 

 É, vocês percebem que eu viajo um pouco, não é fácil manter o fio da meada com tanta coisa, o mundo inteiro indo pra casa do caralho. Mas deixa eu voltar ao meu raciocínio aqui, porque senão daqui a pouco vocês estão dormindo de novo. É difícil conversar com vocês, dá a impressão, olhando pras suas caras, que a qualquer momento vocês vão cochilar e esquecer tudo que eu já falei. Sem palhaçada, vamos lá, vocês que pediram pra saber o que eu penso. Vocês nem têm escolha, né? Difícil achar coisa pra fazer por aí, na minha época ninguém desgrudava o olho dos telefones celulares, era uma coisa nojenta. Aonde você ia, no parque, no restaurante, até na piscina, levava o maldito aparelho, inventaram até um aparelho à prova d’água pro sujeito continuar amarrado nessa merda até tomando sol, sim, é isso que você tá pensando, naquela época se podia tomar sol o dia inteiro, os desgraçados nem valorizavam muito isso, vocês nem imaginam como foi não precisar viver numa porra de caverna. Mas se não quiserem ficar aqui me ouvindo também é só ir ali pro outro lado, já vivi demais pra ter que ficar agradando marmanjo, já tive uma vida enorme, alguém aí já viu um livro na vida? Pois eu vi, cheguei a ler mais de mil, perdi a conta, época boa, tinha gente que conseguia espalhar suas ideias, muita ideia genial circulou naquele tempo, quem sabe ainda existe algum registro decente por aí, seria a coisa mais maravilhosa, ainda tenho esperança de encontrar um dia, apesar de estar pra morrer.

 

 

Calma, vocês me pediram pra contar a história do que aconteceu e eu vou contar, mas pra vocês entenderem não é assim simples, não tem uma fórmula mágica pra eu conseguir explicar, já tenho dificuldade de organizar as ideias por mim mesmo, que dirá pra relatar aquele caos. Vai ser só meu ponto de vista, vai saber o quanto isso realmente explica, se é que alguém se importa. Só o que eu posso garantir é que eu consegui manter minha lucidez, apesar de tudo, eu não sei, mas acho que foi pouca gente que conseguiu, era raro eu trombar com alguém que entendesse o que estava acontecendo, era muito bom quando isso acontecia, parecia que eu estava andando com sede no deserto e encontrava um copo de água gelada.

 

 

Se fosse pra resumir em poucas palavras, diria que o colapso aconteceu em marcha lenta, igual velho que perde o equilíbrio e vai se jogando no chão devagarinho, pra não quebrar nenhum osso. Vocês estão rindo, mas essa metáfora nem é tão ruim, ninguém vive pra sempre, não daria pra ficar mantendo aquela situação por muito mais tempo.  Vocês já devem ter ouvido falar que a história do mundo foi sempre essa exploração do homem pelo homem, desde o tempo das cavernas, quer dizer, o outro tempo das cavernas, antes das civilizações. E aí vocês devem estar se perguntando, se já não decifraram essa charada: como é que o pessoal aceitava ser dominado de boa, não lutava? Muita gente graúda já se perguntou isso. Só perguntou mesmo, porque resposta, resposta verdadeira, até hoje ninguém entendeu direito, dá pra juntar uma porção de explicações pra ter uma ideia mais ou menos, e mesmo assim é provisório. Provisório e que incomoda pra cacete, juro pra vocês. Não é fácil ver as coisas sem o conforto desse conto de fadas que todo mundo se esforçava horrores pra manter, até hoje me pego perguntando se valeu realmente a pena, de que adiantou ter percebido tudo isso se no final tudo foi à merda de qualquer maneira? Não era melhor ter morrido naquele faz de conta igual todo mundo, ter conseguido afogar a angústia desse apocalipse autoinfligido por meio de roupas de grife e fotos na torre Eiffel?

 

 

É melhor eu dar uma segurada no meu niilismo porque a coisa já não anda boa, se eu continuar com isso daqui a pouco vamos ficar sem vontade, a única coisa que restou nesse planetinha infernal. Eu exagero, vocês percebem, é claro que é melhor perceber do que viver feito gado, fizeram até música, vocês não devem conhecer, o cantor falava que a ferrugem já estava comendo toda a engrenagem, e mesmo assim o povo esperava o mundo se acabar sem fazer nada, igual boi no pasto, que ficava comendo, engordando, esperando pra morrer, vocês não devem conhecer. Era assim a música: Êh, ô, ô, vida de gado, povo marcado, êh, povo feliz! Vocês reparem que algumas pessoas já haviam percebido a coisa indo ladeira abaixo muito tempo antes, até tentavam avisar, por que diabos alguém faria uma música como essa se não fosse pra passar um recado urgente? Não adiantava, vai saber o que o povo pensava, o que sei é que eu via sempre um pessoal verdeamarelo cantando essa música, mas não pareciam nem um pouco preocupados, provavelmente porque não conseguiam entender muito bem do que a letra se tratava, apenas gritavam EEEE OOOOO sem perceber que na verdade a música era justamente sobre eles, e aquele mugido acabava nem sendo tão metafórico assim.

 

 

Sempre quis entender a fundo essas ideias que seguravam a civilização inteira, impediam o colapso generalizado que ocorreria se muita gente começasse a fazer essas perguntas incômodas de uma vez só. Você entende? Eu era motorista e percebia o dinheiro indo pros acionistas da empresa dona do aplicativo, mas os fodidos que usavam meu serviço não percebiam a estrutura injusta que tornava viável que eles pagassem a merreca que pagavam pelo transporte que eu proporcionava. Imagina se todo mundo entendesse de uma vez, isso é uma coisa revoltante, entendem, se você parasse pra pensar de verdade não teria, como ficar inerte, imagine se houvesse uma forma de explicar de uma vez só pra todo mundo e muita gente resolvesse simplesmente parar. Como que ia fazer? Não ia, o negócio todo ia parar. Era só isso que precisava, e que ninguém nunca foi capaz de fazer na realidade, só no campo das ideias, um escritor português até escreveu um ensaio em que imaginava um acontecimento parecido com isso, mas naquela época já estava tudo cagado e ninguém parava muito pra prestar atenção, mesmo ele falando tão bonito, é como você gritar contra o vento, alguém aí já tentou gritar na frente do ventilador? Peraí, não precisa tentar agora, eu tô falando, pô. Depois vocês tentam, o som não chega muito longe, a máquina não deixa.

 

 

Não é que as pessoas viviam sem explicações, não dá pra viver sem elas, por mais que se esforce, em algum momento vai ser necessário. Pouca gente consegue só ir vivendo, não dá pra passar a vida na chuva, sem um abrigo. No lugar do entendimento da real situação em que se encontravam, as pessoas viviam seduzidas por algumas histórias, explicações criadas por quem tinha interesse em manter as coisas como estavam, ou seja, quem tinha dinheiro e quem achava que tinha (ou que viria a ter). Não era religião, caralho, já falei que não vou falar disso, esse assunto me deixa nervoso. Eram outras explicações, coisa de gente estudada. Marketing, chamava. Elas faziam sentido olhando de pertinho, era muito fácil um trabalhador parte da massa de manobra ser seduzido por elas, mas quando analisadas de longe, começavam a feder. É como o planeta Terra, vocês sabiam que o planeta era azul? Era muito bonito, qualquer dia aparece alguma foto e mostro pra vocês. Só dava pra perceber esse azul de muito longe, da atmosfera, coisa de astronauta. Se eu fosse astronauta não voltaria é nunca hehehe. Por que alguém jogaria um jogo que sabe que é fraudado?

 

 

Vocês são ansiosos demais, estão com pressa de quê? Já falei que vou explicar, mas se fosse simples de entender o mundo não tinha virado o que virou. Não, nada a ver com esquerda ou direita, ou com os malditos fascistas que apareceram arrotando ignorância pra todo lado. Roma pegou fogo e ninguém culpou o palito de fósforo, esses merdas foram só um dos símbolos de algo bem mais sombrio, por isso que é complicado, se fosse assim tão simples era só ter metido uma bala na cabeça do trump que estaria tudo resolvido, hahaha como seria lindo se tudo fosse tão fácil, mas não, seria só uma distração enquanto os mesmos duzentos vermes continuariam aquele trabalho nojento de destruição. O buraco é mais embaixo, a coisa era coletiva, todo mundo caminhando em direção ao precipício sem perceber. Vai ver é porque estavam olhando pra porcaria da tela do celular. Ou então percebiam, mas estavam simplesmente cansados, sempre me pergunto se esse reset geral que foi feito na humanidade não foi porque simplesmente a gente chegou num ponto em que não tinha mais novidade, a coisa toda já era conhecida, e tudo era sempre a mesma merda, uma hora cansa. Parece que de repente todo mundo ficou com banzo, o mundo inteiro cansado de tentar, todo mundo querendo mais é que se fodesse.

Não, eu não falo nada à toa, vocês precisam se esforçar um pouquinho, parece que estão dormindo, se quiserem que eu pare de falar é só avisar, não ganho nada com isso. Falei do banzo, que foi algo frequente entre os escravizados do passado, porque fica nítido que você está sendo explorado quando tem um maldito te colocando uma corrente nos pés, mas na minha época o povo também era explorado, de um jeito bem mais oculto, e ninguém podia fazer nada, não tinha o sofrimento corporal da corrente e do chicote, mas tinha aquela angústia de não poder fazer nada, de ver todo mundo na mesma merda e todo mundo também convencido de que não dá pra fazer nada, como disse o grande poeta mineiro, não dá pra dinamitar a ilha de Manhattan sozinho, e juntos a única coisa que o pessoal fazia era torcer pro futebol ou rezar. Vou até mudar de assunto, falar de rezar me deixa doente de nervoso, nem a civilização ter acabado fez acabar a vontade coletiva de delirar, vamos voltar onde eu parei que já me perdi, se alguém puder me ajudar, assim fico mais calmo.

 

 

O quê? Fogo? Deixem pegar fogo, venham pra cá e tragam os papéis, é só cortar o oxigênio que ele apaga. O fogo dói no começo, parece que vai acabar com tudo, mas daqui uns anos vamos contar essa história e dar risada, se tem uma coisa que me fez levantar da cama todos esses anos foi o senso de humor.


Luis Gustavo Velani vive no interior de São Paulo. É mestre em Administração/Ciência Política pela FGV-EAESP. Além de poeta e escritor, é advogado e servidor público. Publicou três livros de poemas, Pasárgada em chamas (2021), Poemas de instagram (Lambrequim, 2023) e Vamos dinamitar a ilha de Manhattan (Borboleta Azul, 2025), e um romance, O Massacre da Faria Lima (Editacuja, 2023). Discute literatura em seu Instagram: @lgvelani.


                                                 Variações: revista de literatura contemporânea

                   XV Edição, ano 5, vol. 05, n. 02  - Urbanidades, poéticas e desconceituações: 
                                                           viver no limite do absurdo
                            Curadoria e Edição: Bruno Pacífico e Marcos Samuel Costa

                                                                             2026

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