Violência sonora - Gutemberg Armando Diniz Guerra


 


Violência sonora

Gutemberg Armando Diniz Guerra



A violência entre os seres humanos se manifesta de variadas formas e, para que seja evitada, precisa de acordos que devem ser cumpridos e ajustados quando não estiverem fazendo efeito. Uma das formas de violência mais comum e naturalizada é a sonora que tem sido praticada tanto na zona urbana quanto rural, tanto em balneários como em ambientes bucólicos, tanto no cotidiano quanto nos eventos esportivos, culturais, religiosos e políticos, como se fossem manifestações legítimas e legais.

No afã de catequisar os que se encontram fora dos padrões requeridos pelos pastores, praticantes de religiões que se atribuem a tarefa do convencimento, fazem um apostolado cujo poder da graça pretendida aos alvejados vem dos brados amplificados por caixas de som que estremecem as carnes e as consciências do público. Vizinhos de igrejas evangélicas tem feito reclamações amiúdes e não raro sendo tratados como incomodados por não aceitarem a mensagem do salvador no coração, o que de fato torna-se impossível pela aceleração dos batimentos cardíacos provocados pela agressão aos tímpanos.

A pretensão de atingir ao maior público também parece ter sido absorvida pelos músicos de determinados gêneros em que o volume exacerbado faz parte da estética alucinante dos seus executores e admiradores. Estremecem paredes, solos e ares dos ambientes em que são praticados, em que pesem as regras que se arrepiam e são rasgadas por aqueles que deveriam harmonizar suas mensagens com sofisticação e sensibilidade. Tremes-terra, carretas e carretinhas de som, trios elétricos e veículos equipados com poderosas caixas de som circulam impunemente bombardeando a tranquilidade alheia.

Em tempos de campanha eleitoral extrapolam-se os limites da razoabilidade. Embora existam leis que estabelecem as margens de possibilidades, pautando o volume, os horários, os locais e as formas de comunicação que podem ser feitas, sem que haja agressão ao público que se pretende sensibilizar com os veículos utilizados, os candidatos a gestores da sociedade se posicionam como onipotentes no que concerne ao quesito publicidade sonora. Em que pese os maiores interessados no combate aso abusos serem justamente eles candidatos a cargos eletivos no legislativo e no executivo, tanto nos níveis municipais, estaduais e federais, são justamente eles, de qualquer matiz política, de direita, centro ou esquerda, quem praticam o crime, ao arrepio das regras já estabelecidas e consagradas, tanto quanto fugindo ao controle das instâncias reguladoras, monitoradoras e repressoras dos abusos que venham a ser praticados.

Independente de eventos, um dos ruídos que mais incomodam os moradores do campo e da cidade são os roncos dos motores à explosão, principalmente de motocicletas que propositadamente são pilotadas nas caladas da noite, quando o policiamento se arrefece e parece ser conivente ou insuficiente para coibir e enquadrar os infratores que se satisfazem com acelerações de seus veículos com descargas sem silenciadores e equipamentos adequados para abafar os ruídos provenientes de suas máquinas.

Mais do que o ruído em si, que pode ser suportado e até aplaudido por jovens em seus experimentos existenciais, a incompreensão e perversidade é acentuada quando se trata de pessoas debilitadas como idosos, autistas, portadores de transtornos auditivos, além de animais de estimação como os cães, ou animais silvestres cuja audição é mais sensível às vibrações sonoras que os humanos. Já foram proibidos e evitam-se rojões e foguetes tanto nas festas juninas quanto na celebração do Círio de Nazaré e outras procissões justamente pela compreensão e respeito aos que sofrem com estas sonoridades. Ainda assim, há infratores insistindo nessas práticas...

Alguns lugares emblemáticos para celebrações por serem ambientes povoados de bares, restaurantes, boates e lanchonetes se tornam verdadeiros espaços de extrapolação da violência sonora, como é o caso de trechos eleitos para concentrações de manifestações políticas e religiosas no centro histórico de Belém e nas principais avenidas do município.   

Estas práticas subversivas da sociabilidade são criminosas porque não respeitam o volume, além de serem repetitivos e muitas vezes estacionados em lugares que fazem a incidência inviabilizar a tranquilidade dos moradores ou frequentadores dos lugares que elejam para suas práticas sonoras.

Canais para recepção de denúncias existem, com números de telefone que atendem imediatamente os que se posicionem ou registram o que se queira relatar e enquadrar. Um deles, o 181, acolhe a denúncia sem exigir nenhuma identificação do denunciante, mas não se compromete a fazer a checagem nem a intervenção imediata aos infratores, o que redunda em inoperância e insatisfação de quem denuncia. O outro, o 190, acolhe a denúncia e pretende agir de imediato, enviando uma viatura ao local e abordando imediatamente os infratores, mas exige a identificação do denunciante, o que de certa forma inibe a que se faça esta ação cidadã por receio de retaliação. O que considero estranho é que infrações cometidas em vias públicas, à vista de autoridades policiais de nível municipal, estadual e federal, representadas visual e ostensivamente por viaturas e contingentes em circulação, não sejam reprimidas e punidas imediatamente, sem que haja mesmo a denúncia e exposição dos cidadãos.

Mais curioso ainda é que cidadãos que tentam dialogar e lembrar aos infratores o cumprimento da lei, sejam tratados como delatores, inconvenientes e desagradáveis, invertendo-se completamente a situação dos agressores que cinicamente ferem as regras de boa convivência e respeito às normas de sociabilidade.

É necessário que as pessoas tomem consciência de que existem várias formas de agressão e essa é uma delas que não pode permanecer naturalizada, mesmo depois de feitos esforços para se ter uma legislação sobre o assunto.

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