O universal na obra localizada de Baldwin - Marcos Samuel Costa

 



O universal na obra localizada de Baldwin

 


Por Marcos Samuel Costa

 


Esse é o segundo livro de James Baldwin que leio; o primeiro foi "O Terra Estranha", um romance volumoso e cheio de camadas. Li durante a pandemia da COVID-16, em Ponta de Pedras, Marajó. O livro foi um presente do meu editor, ele disse na época algo como: “Marcos precisa ler esse livro e conhecer esse autor”. Então, certo dia, me chegou autor e obra. De lá para cá, o coloquei em centralidade, digo, o autor, mas não retornei a nenhum livro dele. Algo que até eu não sei explicar: olho para Baldwin e sei do que ele foi e é capaz, mas não nos encontramos nesses últimos anos. E, por um acaso, esse exemplar de "O quarto de Giovanni" me chegou por meio de um sebista, e, como havíamos feito umas trocas de livro, eu tinha saldo na casa. O trouxe de graça – e o deixei na minha mesa de trabalho, junto a outras prioridades de leituras que nunca respeito. Após terminar de ler “Retrato de um artista quando jovem”, o saquei e, enfim, comecei a leitura. Depois de uma ressaca grande de leituras.

Para esse breve ensaio, fiz-me valer de duas escritas antropológicas, que é hoje o campo em que dedico meus estudos, ambas para fazer a partida interpretativa a partir da leitura da cultura, de um lado Clifford e do outro, a Lila. Sei que em muitas outras fontes e caminhos tem a somar, porém optei por essas.

O livro começa falando da morte de Giovanni. Assim, abruptamente – sem quaisquer rodeios, David está na janela de uma casa no fim do mundo – mundo deles, dos brancos norte-americanos que viam naquele momento o Velho Mundo como ápice de uma aventura da juventude.   De imediato sabemos disso, da morte, porém não sabemos os motivos e vamos pensando o que poderia ser a motivação. É somente nas últimas páginas iremos saber, conhecer esse motivo. Enquanto isso, junto a David, narra em primeira pessoa: somos atolados por narrativas, camadas e memórias que fazem desse romance o romance que é, uma pedra brutal que jamais será exibida como um mero patuá. Pois, como muito bem nos lembra Clifford (2008): “A cultura é pública porque o significado o é”, e é justo nessa mediação da liberdade que encontramos meios para interpretar esse romance, suas marcas e sinais geracionais. Estamos, então, diante de um homem branco norte-americano que ficou órfão de mãe e cresceu com o pai e com uma tia solteirona. E, antes de Giovanni, sua bissexualidade foi bastante pontual, com seu melhor amigo – uma experiência que trouxe junto consigo o rompimento da amizade e o distanciamento. Mesmo pontual, essa experiência marcaria David por toda sua vida, pois isso ficou em seu corpo e em seus sonhos. Ainda em Clifford (2008): “O que procuramos, no sentido mais amplo do termo, que compreende muito mais do que simplesmente falar”, estamos diante do sentir e o sentir requer a experiência do vivido e do viver. Se David poderia ou não ser um “nativo”, quanto sua bissexualidade não poderemos dizer, no entanto, podemos saber/ler que ela aflora com Giovanni. E, como bem escreveu ABU-LUGHOD (2018): “A linguagem da generalização não é capaz de transmitir experiências e atividades desse tipo.” Então, o não saber é um direito que nós somos colocados e não flexíveis. Ele é ponto.

        A paixão por outro homem tardou, mas chegou. E, como fica expresso ao longo desse curto romance, foi avassalador. Pois: “(...) o oceano não seria profundo o bastante para nele afundarmos nossa vergonha e nosso pavor” (p. 31). Tudo é profundo demais nesse livro, longo demais, triste demais, assim como alegre e feliz. Tudo é vivido com intensidade de um raio que rasga as terras secas de um campo em um fim de tarde com tempestade.

        Nós prendemos a leitura, por meio dos muitos caminhos que ela vai seguindo. Queremos saber mais sobre a paixão, sobre a noiva-namorada de David. Queremos saber da vida – pelo menos eu me liguei a isso, e não foi a morte de Giovanni que me prendeu, até queria no fim que ele continuasse vivo. Ao longo da leitura, fui lembrando das minhas primeiras paixões e como elas têm esse real poder de mudar toda a nossa vida em poucos dias.

        Ao mesmo tempo, temos o protagonismo de David, sua relação tão ambígua com o pai, seu ódio e amor por ele. O afastamento que os homens sempre fazem de si mesmos e, como consequência, de outros homens, como na maioria dos casos, do pai. Esse desejo tão grande de ser diferente da figura de nossos pais, que acabamos nos tornando cópias deles. Julguei minha adolescência todo meu pai, e cá estou, tão chato e parecido com ele. Não sabemos exatamente quando ele vai para a Europa; sabemos que ele sai da casa do pai e da tia, que se envolve em várias situações que lhe mudam. E, entre agonias, gemidos e sorte, vemos o verde sonho de um jovem se tornar realidade.  

Ausência de descrições sexuais.

        Outro ponto que me chamou a atenção nesse romance foi o fato de ele ser sobre amor, sexo e paixão, num universo bissexual ou homoerótico, e em momento algum temos cenas de sexo entre Giovanni e David. Sabemos, pois viveram meses no mesmo quarto, porém, nada é descrito de forma clara. Estamos flutuando sobre o enredo; não sabemos quem penetra, quem ou se eram versáteis. Não se tratou de quem poderia ser mais ativo ou passivo. Somente sabemos que existe uma intensa paixão, e ela é o fio condutor da vida deles naquele momento.

        Talvez Baldwin tenha feito isso de propósito, sendo ele um homem que se relacionava abertamente com outros homens. Quis mostrar que a paixão é o suficiente, descrever o que fere, queima e corta. As cortinas foram fechadas aos nossos olhos e nos sobrou apenas a imaginação. Então, imagino sim, Giovanni penetrando David com seu falo ereto, molhado por cuspe. Giovanni cuspindo em suas próprias mãos e umedecendo o cu do outro para que seu pênis lhe entre e juntos, gemendo juntos, trocassem palavras de amor e ódio. Fazendo esse longo mar que dividia naquele momento o novo e o velho mundo, coubesse em uma jorrada de porra na parede quando os dois decidiam que deveriam jogar e se masturbavam juntos, pois nas palavras de David: “Lembro da vida, naquele quarto, parecia transcorrer no fundo do mar” (p. 71).

        Tudo estava submerso e sentíamos em nossa própria pele o sal e águas geladas do mar. Assim como na língua, um certo rancor azedo com gosto de conhaque. Nós perguntamos como podem beber tanto, esquecendo que um dia estivemos nesse lugar da paixão e de quem, embriagado, queria ser capaz de suportar dentro do peito um coração apaixonado que seria capaz de qualquer coisa para amar.

Novo mundo e velho mundo.

            Os mundos no romance são definidos: o Novo Mundo, com suas novidades, e o Velho Mundo, com sua profunda Belém. O norte-americano que passa a ter sua própria identidade a partir de um país ocupado, roubado e forjado, e um italiano cheio de sonhos e traumas de sua aldeia. Há algum tipo de respeito nisso, e fazem o favor, ambos os personagens, de deixar claro de onde são e como isso não define, mas fortaleza suas identidades – que em jogo se afirmam –, é a infinidade que nos acalanta e provoca raiva nesse romance. É um sonho americano e o pesadelo de retorno, uma rapsódia sobre dois homens e uma mulher que ficam entre eles dois. É um romance sobre a morte de Giovanni, que não acaba em si, se multiplica em nossas próprias experiências. 

 


GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008. Cap. 1, 2 e 15. ABU-LUGHOD, Lila. A escrita contra a cultura. Equatorial – Revista do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Natal, v. 5, n. 8, p. 193–226, jan./jun. 2018.

Comentários

  1. ótima leitura, adoro ver como escrita poética e academica, acabam se entrelaçando e criando algo único.

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